Henryk Sienkiewicz - Quo Vadis?



Esse é um dos clássicos da literatura cristã mundial. Meu exemplar é bastante antigo - aliás, não se encontram reedições. 

Quo Vadis - Romance dos Tempos de Nero
Os Grandes Romances Históricos # 9
Autor: Henryk Sienkiewicz
Ano: 1976
Páginas: 343
Idioma: português europeu
Editora: Otto Pierre Editores

Fico muito admirada por não encontrar, hoje em dia, nenhum dos grandes clássicos da ficção cristã, como Quo Vadis, Ben-Hur, O Manto de Cristo, O Segredo do Reino, Fabíola  - ou a Igreja das Catacumbas, Moisés, e outros livros do gênero. Naturalmente, talvez o avanço desse ateísmo frio, do espírito cientificista e do apego materialista sejam os responsáveis. As pessoas, entretanto, não sabem o que estão perdendo! São histórias ricas, entretecidas de uma delicadeza e uma emoção tão grandes, que é impossível ler com calma impassível, sem sentir-se transportando àquela época - nos inícios do Cristianismo, quando os grandes apóstolos de Cristo começavam a disseminar sua doutrina entre os povos, e os romanos, ainda altivos, ainda arrogantes por seu poderio e glória, sentiam-se ameaçados. Ameaçados, não porque os cristãos fossem perigosos, mas porque eram diferentes, humildes e ao mesmo tempo, ainda que humildes, não se curvavam aos deuses fakes de Roma. E isso passou a incomodar os arrogantes  e os tiranos, começando as perseguições.


Estou elaborando uma lista dos 10 melhores romances cristãos QUE VOCÊ NÃO PODE DEIXAR DE LER, em breve vou postar. Espero ajudar um pouco os leitores brasileiros que quiserem conhecer a beleza da literatura de ficção cristã.

Henryk Sienkiewicz foi um escritor polonês (1846-1916), o romance Quo Vadis? - Uma Narrativa dos Tempos de Nero, foi publicado em 1895, tornando-se um dos mais famosos romances da história do cristianismo, dando origem a cinco filmes. Os mais famosos são 'Quo Vadis', EUA, 1951 (direção de Mervyn LeRoy) e o mais recente -- polonês, 'Quo Vadis', de 2001.

Na Roma de Nero, um soldado romano, Marcus Vinícius, conhece e apaixona-se pela bela Lígia (cujo nome verdadeiro era Calina, sendo ela da tribo dos lígios, daí o nome que seus pais adotivos lhes deram).

Marcus é um romano típico: forte, arrogante, másculo, sem nenhum tipo de sutileza. Seu tio, Petronius, apelidado pela corte de Nero de "árbitro das elegâncias", poderia ser comparado a um moderno designer de moda ou mestre da alta costura, gay ou não. Na verdade, o personagem Petronius, embora charmoso, apreciador da boa vida, da beleza, da arte e da moda, não era gay; na velha Roma desses tempos, a bissexualidade era comum, a homossexualidade masculina idem. No livro, inclusive, há trechos onde isso fica evidente.

Petronius, porém, embora efeminado em seus trejeitos, era muito ligado às mulheres, tendo várias amantes. Sua amizade por Marcus, seu desprezo por Nero, sua moral elevada, seu espírito honrado - apesar da convivência com o povo mais agressivo, canalha e falso do mundo - a corte de César - fazem dele um personagem com quem o leitor se apega, começa achando graça nele e nas suas piadas. Depois, passa a admirar sua inteligência. E finalmente, apaixona-se por seu espírito elegante, honrado e digno.

Marcus tentará tomar de Lígia o que, sem ele saber, ela já sentia por ele - o amor. A maior parte do enredo será em torno do casal Marcus / Lígia, porque são bonitos, inteligentes, apaixonados, mas não podem viver juntos: ela é cristã, ele é pagão.


O conflito entre ambos é um simbolismo do conflito existente no mundo romano da época: o romano agressivo que queria tomar o mundo, mesmo que à força e pisando sobre tudo e todos, o cristão que, mesmo sendo piedoso e aprendendo a amar o próximo como a si mesmo, não podia se deixar levar pelo pecado. E era só pecado que Marcus queria - no início - oferecer à Lígia.

Ela fugirá dele, ele a perseguirá: é o começo do amor, o começo da transformação. 

Outro fio narrativo paralelo, mostra a velha Roma narcisista, ressumando a perfume de rosas e vômito, pujante de vida e também de lixo podre. 


Nero, um dos césares mais loucos de Roma, é um psicopata que, ignorando a própria feiura (de aparência e de espírito), quer ser um grande artista: poeta, comediante, ator dramático, chegará a por fogo em Roma apenas para, representando sua tragédia, melhor inspirar seus versos.



Não se sabe se o autor tornou a figura do imperador mais caricata que o normal: o fato é que esse Nero é, mesmo no auge das suas atrocidades e maldades, cômico. Um verdadeiro palhaço.

Petronius se torna meio que refém desse bufão, desse tirano ridículo e assustador, porque sendo árbitro da elegância, é a pessoa em quem Nero mais confia, principalmente quando declama seus versos ou representa seus poemas épicos.

Um dos personagens mais comoventes, é o velho Apóstolo Pedro: obedecendo ao Mestre, cuja história ele conta a todos os novos conversos, Pedro não para sua peregrinação, continua sendo o mesmo pescador de antes, só que agora é pescador de almas para Cristo

Pedro surgirá em dado momento na história, para orientar a conduta de Lígia e Marcus e, lógico, adensar a trama.

O incêndio de Roma é um dos episódios mais trágicos e aflitivos do romance, bem como o das perseguições contra os cristãos e de como foram torturados na grande arena do Circo, devorados por leões, por cães, supliciados, pregados em cruzes. Um capítulo da história da humanidade que deveria ser relembrado com mais atenção por todos:

"O povo, com o apetite aguçado por estes preparativos, ajudava os vigias e os pretorianos na caça ao homem. Não era, de resto, coisa difícil, pois bandos inteiros de cristãos acampavam ainda nos Jardins e confessavam em voz alta a sua fé. Quando os cercavam, punham-se de joelhos e deixavam-se capturar sem luta, cantando hinos. Mas esta placidez irritava a turba, que a tomava por fanatismo de criminosos empedernidos. Por vezes, a multidão arrancava os cristãos aos soldados e esquartejava-os; as mulheres eram arrastadas pelos cabelos até às prisões; as crianças eram esmagadas contra os pavimentos. Procuravam-se os cristãos entre os escombros, nas chaminés, nas caves. Diante das prisões, à luz de fogueiras, improvisavam-se festins e danças báquicas. De noite, o povo ouvia com deleite o rugir dos leões. As masmorras regurgitavam, e todos os dias a ralé e os pretorianos encerravam novas vítimas. Parecia que o povo perdera o dom da palavra, a não ser para gritar: Aos leões, os cristãos! Durante aqueles dias de calor tórrido, aquelas noites asfixiantes, o ar estava saturado de loucura e de sangue."

Nos filmes, o martírio dos cristãos é momento de grande intensidade emotiva, no livro também: porque sabemos que tudo aquilo aconteceu de fato, ainda que o autor tenha usado da licença poética para descrever as cenas.

É um romance épico, bem como os dois filmes citados: Vale a pena a leitura, porque, à parte o fato de você ser cristão ou ser ateu, ou pertencer a outra religião, esse momento da História foi o apanágio da glória e da decadência humanas: você decidirá quem saiu vitorioso. Nero, representando o mundo romano com seu deboche, seu escárnio, sua monstruosa crueldade para com todos os que pertencessem à plebe, ou o mundo de Pedro - o mundo dos primitivos cristãos, que com seu sangue, seu martírio e sua fé, construíram - reconstruíram - o mundo ocidental.





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