Sarah Lotz - O quarto dia [resenha]

BY Jossi Slavic Genius IN , , , -


Sarah Lotz e dias sem pé nem cabeça...

Ano: 2016
Páginas: 352
Idioma: português 
Editora: Arqueiro

Em O Quarto Dia, Sarah Lotz conduz o leitor por uma viagem de réveillon que tinha tudo para ser perfeita. Mas às vezes o novo ano reserva surpresas desagradáveis...
Janeiro de 2017. Após cinco dias desaparecido, o navio O Belo Sonhador é encontrado à deriva no golfo do México. Poderia ser só mais um caso de falha de comunicação e pane mecânica... se não fosse por um detalhe: não há uma pessoa viva sequer no cruzeiro.
As autoridades acham indícios de uma epidemia de norovírus, mas apenas descobrem os corpos de duas passageiras. Para piorar, todos os registros e gravações de bordo sofreram danos irreparáveis. 
Como milhares de pessoas podem ter sumido sem deixar rastro? Teorias da conspiração se alastram, mas só há uma certeza: 2.962 passageiros e tripulantes simplesmente desapareceram no mar do Caribe.

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EU JÁ tinha ouvido falar do outro livro da autora, "Os Três", que pela resenha, prometia ser um baita suspense, no estilo que sempre apreciei. Mas qual não foi minha surpresa ao iniciar  o e-book (sorte minha não ter comprado o livro impresso, ia ser outro a voar para o sebo ou para o lixo mesmo), e perceber a furada que era! Um começo que prometia, descamba numa narrativa toda enrolada, cheia de nós e vários personagens, o que só tornava tudo uma confusão dos diabos.

Como tinha lido muitos comentários no Skoob e percebido que se tratava de um livro sem final ou melhor, com um final que não tinha nenhum esclarecimento, já comecei a leitura desse aqui (O Quarto Dia) imaginando que teria o mesmo destino do anterior (que eu abandonei).

Mesmo assim, louca que sou por um suspense, prossegui a leitura, mais devido aos comentários do povo -- a maioria elogiando o grande 'suspense' e dizendo que, mesmo em se tratando de outra trama bem confusa, valia a pena ser lida.


Não posso dizer que me arrependi, pois em alguns momentos até que foi interessante: no início até a metade, mais ou menos. A narrativa é rápida, mas deixa a desejar em matéria de coesão. Os personagens são todos terrivelmente egoístas (com exceção da "assistente da bruxa", Maddie, auxiliar da médium Celine Del Rey), maldosos, fofoqueiros, desagradáveis. As mulheres -- quase todas -- são descritas sob olhares críticos à exaustão, nenhuma sendo classificada como 'bonita', 'charmosa', 'elegante'. 

Os homens parecem seguir o mesmo estereótipo: um estuprador meio doido, o outro um mulherengo safado, outro sádico, outro cafona. Salva-se um blogueiro meia-boca, justamente o céptico da história e maior difamador da médium Celine (que é outra trambiqueira e farsante). Também se salva o médico Jesse e um segurança indiano do navio, mas nenhum deles faz o papel de mocinho ou herói. E, convenhamos, toda boa literatura de ficção precisa de um 'mocinho' ou 'mocinha'. Mesmo que demore a se tornar digno desse título.



O fato é o seguinte: quase nenhum personagem é cativante ou tem qualquer característica positiva. Os pensamentos de todos, desde o capitão do navio e o diretor do cruzeiro, até a camareira mais humilde, são dos piores tipos: não faltam palavrões dirigidos aos colegas, aos passageiros, aos tripulantes, ao mundo. A médium é uma mulher chata, esquisita, grosseira. Depois de certa altura, mudará de personalidade, mas mesmo aparentando estar verdadeiramente preocupada com o bem dos outros, se verá no decorrer da história que não é assim... Ela deixa uma personalidade cafajeste e grosseira, para assumir outra, ainda mais falsa e diabólica.

O mistério que atinge o tal navio surge na forma de um acidente, que corta a energia e tornará o dia a dia dos passageiros uma grande tortura. Faltará desde água encanada, até alimentos, sem falar de algumas assombrações que surgirão aqui e acolá, mas... sinceramente? Nenhuma digna de nota. Apesar do alarde da autora em torno dos tais "fantasmas", não senti nada de terrível em nenhum deles, em suas aparições, em suas aparências e muito menos, nos motivos de suas aparições. Coisa que, aliás, não é explicada (como parece ser o costume da autora, deixar tudo sem explicação).


O final é confuso. Complicado. Bizarro. Mas não a bizarrice como a de um mestre feito Stephen King, por exemplo... Não. É apenas bizarro pela falta de jeito com que Sarah Lotz conduz a narrativa do final. E as explicações? Nada. Não se entende coisa alguma. É como uma estrada, que liga o Nada a Coisa Nenhuma. Necas. Nadinha. Bolhufas. Ficamos a ver navios... ou melhor, a não ver nada além do "Belo Sonhador", que durará na memória do leitor o mesmo tempo que uma bolha de sabão dura no ar.

Um último capítulo que tem a pretensão de parecer macabro, mas só nos arranca um suspiro de tédio. 

Minha dica para quem quer REALMENTE ler uma história de 'fantasmas', como as clássicas, cheias de arrepios, que nos fazem roer as unhas e ficar ansiosos para ler  mais e mais, até que cheguemos ao clímax e possamos respirar: Leiam...

  • Henry James (A Volta do Parafuso); 
  • Stephen King (O Cemitério, A Hora do Vampiro, Sombras da Noite
  • E a melhor: A mais bem escrita, bem trabalhada, com começo meio e fim bem amarrados e com nexo -- onde nada fica sem resposta, por mais horrível que seja: Peter Straub, "Os Mortos Vivos". [Veja AQUI e no SKOOB].


Robin Cook - Coma [releitura e comentários]

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Robin Cook em um de seus primeiros suspenses impactantes

COMA
Ano: 1996
Páginas: 250
Idioma: português 
Editora: Record

Sinopse:
Todos os dias, em todos os países do mundo, os hospitais efetuam pequenas intervenções cirúrgicas de rotina. Os pacientes se recuperam rapidamente e podem voltar à sua vida habitual.

Nancy Greenly, Sean Berman e uma dúzia de outros doentes deram entrada no Memorial Hospital para uma pequena cirurgia. Mas estas intervenções de rotina acabaram transformando-os em vítimas da mesma tragédia horrível e inexplicável na mesa de operações… nunca voltaram a acordar. Um erro não identificado, ocorrido durante a anestesia, provocou a morte irreversível do cérebro, deixando-os num coma profundo.
Mas algo de estranho se passa… algo de muito errado. E Susan Wheeler, uma bela, dinâmica e jovem estudante de Medicina, arrisca a própria vida para descobrir a explicação aterradora; uma maquinação tão assombrosa, tão elaborada e, no entanto, tão possível que nos deixa suspensos no próprio medo…
Coma, o mais famoso livro de Robin Cook, aquele que o tornou conhecido em todo o mundo, foi já adaptado ao cinema. Dr. Robin Cook é um prestigiado médico norte-americano especializado em Oftalmologia, doutorado em Harvard. É reconhecido como o fundador do gênero literário "thriller médico".

MINHA OPINIÃO:

Esta foi minha releitura de um dos maiores thrillhers de Robin Cook. Como todo bom livro, há sempre a possibilidade de uma releitura. E eu o faço sempre que começo a esquecer de alguns detalhes, dos finais, de trechos impactantes, de emoções ou das implicações da temática. 

Em "Coma", escrito nos anos 1970, Cook narra um thriller de tirar o fôlego, com uma mocinha, uma estudante de medicina (segundo ano!) que tem mais inteligência que todos os médicos velhos e experientes do hospital. 

A narrativa é ágil, rápida talvez até demais, o que faz com que percamos o fôlego durante a leitura. O autor aborda um tema que era comum nos anos 1970 -- o machismo dos médicos, que viam com maus olhos as "mulheres médicas" --  embora hoje isso não seja relevante. É curioso ler um livro contemporâneo, mas que é ao mesmo tempo ambientado em locais, com tecnologias e pontos de vista obsoletos (como esse dos médicos 'machistas').

A tramóia que vai envolver Susan Wheeler, pacientes relativamente jovens e saudáveis que, sem mais nem menos, entram em coma e mais um punhado de personagens que orbitam em torno do Hospital -- incluindo um possível namorado -- vai nos levar aos subterrâneos dos grandes centros médicos, a corridas através da noite, a salas de cirurgia frias e assustadoras, etc. E a um lugar fantástico, na época compondo um cenário de ficção científica: hoje nem tanto.



Mesmo para quem não é afeito a terminologia técnica da medicina, o livro tem uma narração simples, desenvolta e uma ação que converge rapidamente para um final totalmente inesperado.

Muitos leitores reclamam desse final, e eu não discordo deles... O livro é ótimo, o suspense nos mantém acesos e curiosos. 

O final é ótimo, mas o desenlace da personagem, suponho, deveria ter tido mais atenção. A impressão que dá é de um corte abrupto -- uma cirurgia, se preferirem. Ficamos ali, lendo e relendo os últimos parágrafos e remoendo todas as possíveis implicações daquelas cenas finais... mas fica a nosso critério. Um final sem um FINAL, da maneira como todos os leitores teriam preferido, com certeza. Nossa imaginação é a responsável por tudo o que poderia  ter acontecido depois.

Numa nota final, Robin Cook fala a respeito do mercado negro de órgãos humanos. Isso me fez lembrar de uma notícia recente, da famosa clínica abortista, patrocinada pelo governo Obama, Planned Parenthood, cujas últimas notícias foram totalmente absurdas e revoltantes. 

Vídeos feitos pelo grupo pró-vida Centro para o Progresso Médico, mostram médicas abortistas conversando animadamente enquanto almoçam, falando sobre os preços dos 'órgãos'. Até fazem piadinhas, como se falassem de peças de carnes a serem vendidas num açougue.



De modo geral, o livro é interessante e uma reflexão final sobre a ética médica nos convida a pesquisar mais sobre esse assunto delicado.


Neil Gaiman - A Bela e a adormecida

BY Jossi Slavic Genius IN , , , , 2 comentários



A bela rainha e o belo beijinho...

Ano: 2015
Páginas: 72
Idioma: português 
Editora: Rocco

Em uma sombria e fascinante história, as mais queridas princesas dos contos de fadas são reinventadas de maneira brilhante pelo inglês Neil Gaiman e o ilustrador Chis Riddell. Em A Bela e a Adormecida, uma jovem rainha é informada, na véspera de seu casamento, sobre uma estranha praga que assola as fronteiras do seu reino, um sono mágico que se espalha pelo território vizinho e ameaça os seus domínios. Na companhia de três anões, a rainha abandona o fino vestido da festa, pega sua espada e armadura e parte pelos túneis dos anões para o reino adormecido. 


RESENHA
...e o belo beijinho.

O livro foi escrito para ser politicamente correto, como tudo -- com raras exceções -- hoje em dia. 

Esse livro parece ter causado certo 'frisson' entre gays e lésbicas, porque aparentemente deveria ser um livro com um 'beijo lésbico', ou seja, Neil Gaiman, para ficar bonitinho e corretinho, queria entrar na onda de 'recontar contos de fadas opressores, patriarcais, heteronormativos, românticos e conservadores' para histórias mais 'progressistas'. Ou seja, começar a mudar as coisas para as crianças... afinal, as menininhas (coitadas!) precisam 'aprender que nem só de príncipes encantados-opressores-machistas-patriarcais vive a sociedade pós-moderna'... Ops. 


E por quê os príncipes dos contos de fadas deveriam deixar de existir, seu Neil Gaiman? Para seguir a política imposta pela ONU e entrar na linha dura do esquerdismo dominante? Cotas para rainhas e princesas lésbicas. E para príncipes gays. Essa história de cotas é algo simplesmente absurdo, rasteiro, humilhante. Principalmente para quem recebe as tais 'cotas'. Sem falar que os gays e as lésbicas que não compartilham do movimento político (ou melhor, do modelo político imposto), também discordam que as tradicionais histórias infantis devam mudar seu enredo, apenas porque alguns políticos idiotas resolveram que "tem que ser assim".



Só que não: ele fez tudo 'de acordo com o figurino da ONU', mas o continho recontado não deu conta do recado. Ou melhor: A história foi fraca, fraquíssima. Para enfeitar mais o pavão do seu Neil Gaiman, as editoras capricharam no visual externo (já que o conteúdo é pra lá de pobre) e gastaram um monte com capas, ilustrações belas e diagramação de primeira. 

Não gostei em absoluto, o politicamente correto está batendo em cheio até na literatura infantil. Contos de fadas são contos de FADAS. O ingênuo, o inocente, o delicado, o romântico. E também a vilania, a maldade e as traições, que no final do enredo, devem ser desmascaradas e destruídas. Nesse livreco, que foi caprichado na encadernação e nas ilustrações, Gaiman segue a agenda da esquerda, ultrapassando os limites do tolerável. Ah, mas 'o beijo da rainha não foi de amor', 'o livro é lindo, fala de respeito, bravura, um mundo com respeito ao próximo, blablablabla". Todos os contos de fadas acabam assim, falando de bravura, amor ao próximo, etc, etc. Só que esse aqui quer colocar o FEMINISMO como pano de fundo.

Sou antifeminista, sou sim conservadora. Crianças devem continuar sendo crianças. Na insossa história de amor ao inverso (onde uma mulher bondosa beija sensualmente uma mulher maldosa) há muitas pitadas de más intenções. Insinuações e situações falam que as mulheres não precisam de homens, que a família é algo 'obsoleto' (já que a rainha desdenha seu futuro marido), que as histórias antigas (os contos tradicionais) são falsos e tolos.

Um livro que não precisaria ter sido escrito. Não faria nenhuma falta. Nota zero para essa historinha feminista e nada como a linda e graciosa história da Disney, com o beijo do príncipe. Nada como o normal e o natural.



Stephen King - O cemitério

BY Jossi IN , , , 2 comentários


Ano: 2001
Páginas: 243
Idioma: português
Editora: Objetiva

Sinopse: Louis Creed, jovem médico de Chicago, acredita que encontrou seu lugar naquela pequena cidade do Maine. Uma casa boa, o trabalho na universidade, a felicidade da esposa e dos filhos. Num dos primeiros passeios para explorar a região, conhece um cemitério no bosque próximo à sua casa. Ali, gerações e gerações de crianças enterraram seus animais de estimação. Para além dos pequenos túmulos, onde letras infantis registram seu primeiro contato com a morte, há, no entanto, um outro cemitério. Uma terra maligna que atrai pessoas com promessas sedutoras. Um universo dominado por forças estranhas capazes de tornar real o que sempre pareceu impossível. A princípio, Louis se diverte com as histórias fantasmagóricas do velho vizinho Crandall. Só aos poucos começa a perceber que o poder de sua ciência tem limites. Prepare-se para páginas de puro pavor. Em uma de suas mais terríveis histórias, Stephen King mostra como a dor e a loucura, muitas vezes, dividem a mesma estrada. 

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O horror psicológico e certa depressão...

Esta obra de S. King talvez seja - junto com 'A Coisa', 'A Hora do Vampiro' e 'Carrie', uma das que mais me prenderam, me acorrentaram à leitura. Por quê? Justamente pelo seu ingrediente quase asfixiante, quase venenoso que mistura: personagens cativantes, identificação do leitor com algum dos personagens, um suspense crescente que, devagarinho,  despencará para os limites entre a sanidade e a loucura e - principalmente - do mais absoluto e abjeto horror.


Você iniciará o livro através da história de uma família típica da classe média baixa americana: um casal de jovens (Louis e Rachel) e seus dois lindos e fofíssimos filhos: A menina Eileen - de seis anos - e o gracioso Gage, ainda bebê de colo, com pouco mais de um ano. Eles estão se mudando para uma cidadezinha do Maine, rodeada por lindo gramado, terreno grande e nos fundos, um enorme bosque a perder de vista...



Tudo na família é encantador, mas o que nos envolve mais é o grande amor entre eles: O casal que se respeita e se ama profundamente e o amor desesperado pelos filhos.

O que assusta e vai se tornando como um laço frouxo de corda no pescoço do leitor, e que aos poucos irá começar a apertar, apertar cada vez mais, é o suspense e uma tensão que começará -- com exatidão -- após uma caminhada por uma trilha no mato. Quem os leverá a conhecer a tal trilha será o seu vizinho, o simpático idoso Jud Crandall, que mora apenas com a esposa adoentada, do outro lado da avenida.

O livro todo tem um centro: o terror sobrenatural do 'cemitério de animais', que fica ao final da trilha... Porém, além deste cemitério aparentemente inofensivo, há outro, outro cemitério... o cemitério Micmac, que estava dentro de umas terras antiguíssimas, pertencentes aos índios.


Arrepios nos percorrem, se dermos tento às reflexões e ao exagerado detalhamento que King faz de certas cenas, e que eu considerei exageradas. Como por exemplo, quando Rachel relembra a doença e morte de Zelda, sua irmã. E uma constante nos livros de Stephen King, que é a repetição exaustiva de certas frases -- como que para enfatizar o clima de tensão do personagem. Para deixar óbvio a quem lê, a obsessão do personagem com aquela ideia, com aquelas digressões. Isso nos causa certa irritação ou engessa, de certa forma, a fluidez da narrativa.

Contudo, a narrativa em terceira pessoa em geral é limpa, coesa e deslizante, gerando empatia quando lemos um diálogo entre Louis e a pequena e inteligente Eileen, por exemplo. Ou quando o casal vive um momento romântico de intimidade e renova seus votos de amor.

O terror psicológico vai iniciar com Louis no centro de tudo e sua obsessão -- graças ao que ficará sabendo por Jud Crandall -- pelo cemitério Micmac. A primeira vítima do cemitério é o gato Church, que retornará dos mortos, renascido, ressuscitado ou... sabe-se lá o que foi aquilo.

A narrativa tomará um ritmo mais forte depois disso, adquirindo quase a nunce das ideias obsessivas de um lunático. O terror de Louis, seus medos, seus pesadelos, irão pular do livro para nos deixar -- a nós, leitores -- levemtente deprimidos.

O clímax é a estupenda descoberta da "magia" do cemitério Micmac:

"Os micmacs conheciam aquele lugar, o que não quer necessariamente dizer que eles é que o transformaram no que é agora. Afinal, os micmacs não viveram sempre aqui. Talvez tenham vindo do Canadá, talvez da Rússia, talvez da Ásia, há muito, muito tempo atrás. Só habitaram o Maine por uns mil anos, talvez dois mil... é difícil saber, porque não deixam muitas marcas na terra que ocupam. E agora já se foram outra vez do mesmo modo como nós, um dia, também não estaremos mais aqui, embora eu ache que deixaremos traços bem mais profundos, para uso melhor ou pior por parte dos que nos substituírem. O lugar continuará, Louis, não importa quem viva no Maine. Não é como se alguém fosse dono do lugar e pudesse levar seu segredo quando se mudasse. É um lugar mau, amaldiçoado, e eu não tinha nada de levá-lo até lá para enterrar aquele gato. Agora tenho consciência disso. Se você sabe o que é bom para você e sua família, nunca deixe de estar alerta ao poder daquele lugar".

O livro é terror psicológico e físico, mas não muito recomendável aos espíritos mais delicados. Fora isso, regalem-se com o mais tenebroso livro de Stephen King.

Frank de Felitta - Por amor a Audrey Rose

BY Jossi IN , , , -



Ano: 1983
Páginas: 368
Idioma: português 
Editora: Francisco Alves, (RJ)

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Sinopse:
Quem leu "As Duas Vidas de Audrey Rose" recorda-se do estranho caso de uma menina que seria a reencarnação de outra, morta queimada num acidente de automóvel. Ivy Templeton nascera no dia da morte de Audrey Rose. Um estranho, Elliot Hoover, afirma que ela é a reencarnação de sua filha. A idéia parace absurda aos pais da menina, porém aos poucos deixam-se tocar e a própria Ivy cede aos argumentos de Elliot, que deseja que ela se submeta a uma sessão de regressão psíquica. Ocorre, no entanto, quer nessa sessão Ivy passa a se comportar como Audrey Rose, reproduzindo o horror e a angústia de seus últimos instantes - e também morre, com todos os sinais de queimadura da outra,

Por Amor a Audrey Rose retoma a narrativa, mostrando a reação dos pais diante daquela tragédia. Qurm mais sofre é o pai, Bill Templeton, que termina tendo um colapso nervoso, o qual evolui rapidamente para a insanidade mental. tendo iso buscar alívio e compreensão das coisas da vida no jainismo e depois no lamaísmo, julga, por fim, entrever a 'realidade': Ivy deve voltar para cumprir uma nova vida. Sua idéia fixa é encontrar uma menina que tenha nascido justamente na hora da morte de Ivy - seria a encarnação dela. Mas a busca obsessiva de Bill não só falha nos seus objetivos, como também contribui para piorar seu estado mental: depois de se ver privado da pequena Juanita, é internado num sanatório para loucos.

Por sua vez, Janice Templeton procura, igualmente, a mesma 'realidade', e para tal parte em busca de Hoover, que fora viver entre monges na Índia. Consegue, por fim, descobrí-lo, convence-o a voltar, para ajudá-la na cura do marido. daí em diante, o romance se desenrola num crescendo de emoção e suspense, até o clímax final."
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O que um amor não faz, não enfrenta e não sofre?

Esta é a continuação do famoso romance (que virou filme, inclusive) "As Duas Vidas de Audrey Rose" [resenha AQUI]. Este primeiro livro é absolutamente tenso, com um suspense e um clima de terror de assustar os leitores mais indiferentes.

Não só o clima de terror nos prende: Frank de Fellita, do qual também li "O Demônio do Gólgota", foi muito feliz nesses três livros, embora desandasse no livro "A Entidade" - um terror mórbido que mistura possessão demoníaca, sexo, estupro, brutalidade e loucura, numa receita que peca pelo exagero e pelo excesso de brutalidade.

Voltando ao livro 'Por amor a Audrey Rose', o que se nota já de início é a grande habilidade do autor em conduzir uma história que é repleta de drama, suspense e até uma alta dose de aventura - quando Janice vai atrás de Hoover, na selvagem e ignota Índia. Sua habilidade com a escrita, vai ao ponto de tornar mesmo as descrições mais enfadonhas - como o dia a dia de uma mulher praticamente viúva de marido vivo, que reúne as últimas forças para trabalhar e tocar uma vida insípida - em momentos de tensão e curiosidade, despertando o interesse e a ansiedade do leitor.

O livro retoma o drama da família - agora já fragmentada - Templeton: Janice, Bill e a pequena Ivy, reencarnação da outra menininha, Audrey - filha de Eliot Hoover. Entretanto, no primeiro livro ( é imprescindível a leitura do primeiro, sem o que a leitura desse fica confusa e totalmente incompreensível), ocorre um drama, uma catástrofe de consequências irreparáveis. Esse drama separa o casal Templeton, porque Bill fica, de repente, completamente fora da realidade e mesmo a contragosto, Janice terá de interná-lo num sanatório.

Mas a obsessão de Bill - que se considera culpado pela morte de Ivy - embora não seja a obsessão de Janice, torna-a desiludida, fraca, embora ela ainda se mostre mais forte perante as vicissitudes.


Nessa maré de terrores, pesadelos, solidão e ansiedade por ver sua amada família destruída, ela partirá em busca da única pessoa que, supõe, poderá tirar Bill do abismo da loucura: O seu antigo "rival", o pai da também falecida, Audrey Rose.

A empreitada de Janice, atrás de um homem de conduta estranha para os padrões ocidentais, seguidor da religião hinduísta e de Krishna (religião que virou 'modinha' nos anos 1970), se transforma numa aventura insana, quase tão insana quanto a insanidade de Bill - lá, preso no manicômio. Entretanto, Janice é mais pé-no-chão. 

Sua temeridade ou coragem, de acordo com os pontos de vista, a levará ao reencontro de Eliot Hoover em meio à natureza febril da velha Índia dos anos 1970, um país devastado pela pobreza, com doenças misteriosas, enchentes, calamidades sociais e naturais, um povo estranho, de costumes quase bárbaros. Mas, segundo o autor, era "para ser assim". "Era o karma daqueles três seres, Janice, Bill e Hoover".

A alma da pobre Audrey não teria descanso até que se cumprissem as "leis kármicas" - coisa que se fala muito hoje em dia, na doutrina espírita e com a qual não concordo e não acredito. Entretanto, no livro que eu considero como uma fantasia sobrenatural, tudo isso parece fazer 'sentido'.

O romance começa bem, embora as cenas exageradamente detalhadas da loucura de Bill, dos sofrimentos de Janice e do sentimento de culpa de Hoover sejam bastante deprimentes. Acredito que o livro se estendeu um pouquinho demais, se aprofundando em detalhes sobre as religiões hindus, rituais, sacerdócio, doutrinas, meditações, etc, que poderiam perfeitamente estar ausentes, sem prejuízo para a trama.

Em determinada altura, cenas de romantismo e sensualidade com determinado casal da história parecem tomar conta do livro todo: de uma história de suspense e terror fantástico, vira um simples romance açucarado. Bom para quem gosta, ruim para quem quer ação.

Entretanto, a conclusão é chocante - embora não de todo surpreendente. Os "fios do destino" se entrelaçam e o que parecia, a princípio, uma grande confusão de nozinhos e pontas soltas, se une numa teia perfeita, onde uma "vontade suprema" determinou tudo. Onde o sofrimento e a paz dependiam de que cada um, à sua maneira, cumprisse fielmente a sua parte...

Um livro bom, que peca pelo apreço exagerado à religião oriental - na minha opinião de cristã. Naturalmente, haverão os que irão apreciar justamente por esse motivo.

Quem não encontrar o arquivo para comprar nos sebos brasileiros, há um ótimo arquivo em formato ePub AQUI. E em formato rtf, o primeiro livro, As Duas Vidas de Audrey Rose, AQUI.