Família Tradicional e Conservadora, e daí? [artigo]

BY Jossi Slavic Genius IN -


PARECE QUE estamos vivendo tempos conturbados ultimamente. E com várias questões morais, sociais e políticas que nos andam deixando de orelhas em pé e olhos esbugalhados.

Depois de leis como a PL 122, que causaram certo bafafá no país (lei contra a homofobia), começaram a surgir diversas novas "teorias" ou "sugestões" de novas leis que, de uma forma ou de outra, ferem a liberdade de expressão dos cidadãos e, mais grave ainda, da chamada "família tradicional".

Mas, afinal de contas, você me pergunta. O que tem a ver a família com tudo isso? Bem, família é um termo muito abrangente, segundo certos segmentos políticos do Brasil - como o PT, por exemplo. Até mesmo há uma nova palavra em português, a palavrinha poliamor [1] (do grego 'poli' - muitos, e do latim 'amor', ou seja, muitos amores...). Segundo determinados psicólogos e movimentos sociais [2], o poliamor é uma nova face do relacionamento humano, onde a monogamia é deixada de lado em benefício de relacionamentos diversos, onde uma "família" poderá ser integrado por dois, três, quatro ou até mais casais... Todos convivendo dentro da "maior ética, respeito e responsabilidade"

Agora, cá entre nós: Isso pode ser chamado de "amor", múltiplo, numeroso ou seja lá qual for o adjetivo? Isso jamais poderá ser chamado de "relacionamento amoroso" e menos ainda, familiar. Que me desculpem os defensores de tal barbaridade, mas isso sim nos remete aos tempos das cavernas... Isso sim, é um retrocesso.

Deixando de lado essa perspectiva lúgubre das relações "amorosas", voltemos ao tema da família tradicinal. Um site, o Consciência.blog.br, catando uma foto de família (provavelmente cristã), escreveu um artigo intitulado "O racismo da defesa exclusivista do molde “cristão” de família", onde o autor critica a família tradicional, alegando que "Os militantes conservadores consideram “pecaminosos” e “desviados” aqueles modelos de família que destoem do padrão branco-europeu e burguês de um casal heterossexual monogâmico acompanhado de poucos filhos."

Em primeiro lugar: "militantes conservadores" que consideram pecaminosa uma família que não seja branca (leia-se, de "origem europeia"): Isso não existe. O Brasil, por sua própria constituição multirracial, é um grande caldeirão onde se fundem todas as raças, etnias, culturas e origens. Aqui inexiste essa coisa de "nobre", "aristocrático", "branco-europeu", porque nenhum descendente de europeu por aqui é puro - famílias de "sangue puro", se é que ainda existem, seriam as de imigrantes chineses e/ou asiáticos recentes, que talvez mantenham certo distanciamento dos nativos nacionais por uma questão intrínseca que foge ao nosso entendimento. Quanto ao "branco-europeu"... Isso é brincadeira, não é mesmo?


Em segundo lugar: "...burguês, de um casal heterossexual monogâmico acompanhado de poucos filhos." Burguês, o que seria isso? Querem dizer família de classe média, suponho. 



O que é, de que se compõem a tão famigerada "classe média" que a militante petista Marilena Chauí disse "odiar" tanto? [3] Bem, que eu saiba, eu própria sempre fui de classe média e isso não significa ser "rico" ou pertencer a aristocracia. Ademais, essa história de que existe no Brasil uma "elite branca", segundo discurso do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, em uma declaração à jornalista Renata Lo Prete, da Globonews, é um verdadeiro absurdo. O que há no Brasil é uma elite financeira, não racial, senhores Lula e Dilma. Essa frase é claramente preconceituosa, estranha, incitadora de ódios raciais, vindo justamente de um governo que se diz "contra os preconceitos e a favor dos direitos humanos". Por que não usaram a frase certa, "elite financeira"? Porque, naturalmente, eles estariam inseridos nessa elite.


E continuando: "...de um casal heterossexual monogâmico acompanhado de poucos filhos". Casais heterossexuais são a maioria e monogamia é algo bastante normal, correto? Ou será que devemos então considerar a aberração citada no início do artigo, o tal do "poliamor" (em outras palavras, suruba) como algo normal? Naturalmente, em tempos de mudanças tão opressores na sociedade e em que o que é tradicional, moral e ético está sendo tachado de "ultrapassado", em que as palavras "pai" e "mãe" já estão sendo consideradas como "preconceituosas" e poderão ser abolidas das certidões de nascimento, tudo é possível. Com relação à famílias homoafetivas eu, para ser sincera, não conheço nenhuma. Nenhuma mesmo - e isso não significa que eu seja contra os homossexuais ou que tenha algum preconceito contra casais homossexuais. De jeito nenhum: Apenas digo com toda sinceridade que, se existem famílias nesses moldes, devem pertencer a outros países e/ou culturas, pois até hoje não conheci nenhuma.

E, de minha parte, declaro-me abertamente conservadora no que diz respeito à família tradicional, ou seja, a família composta de por pais amorosos, filhos - biológicos ou adotivos, avós, tios, tias, sobrinhos, etc. Se é uma família de apenas um filho, de dois, de vários. Se é apenas composta de um tio e alguns sobrinhos. Ou de avós e netos. Seja a família de que raça, religião, região, cultura, etc., for. E essa história de que a "família cristã é de molde alvi-eurocêntrico e burguês" é um  palavrório vazio, sem nenhum sentido, de forma alguma em acordo com a realidade, já que sabemos o quanto as famílias brasileiras são heterogêneas em suas origens, suas cores, suas crenças, raízes, ideologias e filosofias de vida.



Isso para mim é ser conservador e cristão: A consciência de que a família é a base e o sustentáculo da sociedade, já que é a partir dela que o indivíduo forma seu caráter e se prepara para a vida. 

Admiráveis famílias brasileiras! Fico aqui, com uma pequena homenagem a todas as famílias do Brasil e em lembrança da minha família de origem, tão "burguesa e branca" quanto todas as famílias do Brasil - que na verdade é um arco-íris de raças.


REFERÊNCIAS E LINKS:

1.. Artigo da Wikipédia [http://pt.wikipedia.org/wiki/Poliamor ]

2.. International Conference on Polyamory & Mono-Normativity 



Marion Zimmer Bradley - Série Claire Moffat (ou "Ocultismo")

BY Jossi Slavic Genius IN , , 2 comentários


Claire Moffatt
1. Dark Satanic - sem publicação em português (1972)
2. The Inheritor - "A Herdeira" (1984)
3. Witch Hill - "A Colina das Bruxas" (1990)

A Colina das Bruxas

Sara Latimer, uma jovem de vinte e poucos anos, perde toda a sua família de forma súbita e trágica. Quase simultaneamente descobre que herdou uma antiga casa na Nova Inglaterra, onde decide recomeçar a sua vida. Mas a casa é apenas a parte visível da sua herança, pois as tradições familiares incluem outras facetas bem mais misteriosas. Dividida entre a modernidade e a tradição da família, entre o jovem médico local por quem se apaixona e os mistérios da sua falecida tia-avó, a última habitante da casa Latimer, Sara viaja no tempo e no espaço, confrontada com a sua identidade e os seus múltiplos passados. A jovem transforma.se num campo de batalha onde as forças das trevas e do amor se confrontam, lutando pela supremacia e pela conquista da sua alma. A Colina das Bruxas é uma viagem aos mitos do mundo rural americano, com o seu passado puritano, lendas de bruxas, feiticeiros e o seu encontro com a modernidade. É também a exploração de temores e receios atávicos, dos poderes ocultos, das pulsões eróticas e da demanda do poder.



A Herdeira 


Leslie Barnes comprou recentemente a sua primeira casa com vista sobre a Golden Gate Bridge, em São Francisco. A casa parece perfeita para ela e para a irmã, uma jovem sobredotada para a música. Mas, assim que começam a viver na nova casa, dão-se uma série de estranhos acontecimentos que perturbam fortemente as duas irmãs. Com horror, Leslie apercebe-se que está a viver num vórtice de poder mágico e que terá de tornar-se na guardiã desse poder para que este não caia nas mãos daqueles que procuram usá-lo para fins perversos. 

Leslie, que é psicóloga de profissão, sente-se perdida ao ter que lidar com o oculto até ao momento em que conhece Claire Moffatt, uma médium encantadora, e o seu mentor, Colin MacLaren, um parapsicólogo mundialmente famoso. 

Juntos, enfrentarão o mal e possibilitarão a Leslie tomar posse daquela que é a sua herança. 

RESENHANDO...

Imaginei que estas histórias eram "apêndices" da série "Light" (já resenhada aqui no blog), ou "Poder Supremo" (como é conhecida em português). Mas não: Na verdade, são historias que se entrelaçam à série Poder Supremo, mas constituem uma série à parte (sendo que o primeiro livro, introdutório, não foi publicado nem no Brasil, nem em Portugal, pelo que percebi).

Vamos à série, que se chama "Claire Moffat":

Claire Moffatt
1. Dark Satanic - sem publicação em portugueês (1972)
2. The Inheritor - "A Herdeira" (1984)
3. Witch Hill - "A Colina das Bruxas" (1990)

Quem é Claire, afinal? É uma personagem da série 'LIght", mais precisamente do último livro, Heartligh (1988). Claire é amiga do grande mago do bem, Colin e presencia todos os grandes momentos de Colin, quando - com seu poder de clarividência - ela o auxilia, aliviando o sofrimento de muitas vítimas da magia negra.

Vamos ao primeiro livro:

A HERDEIRA - 1984


Acredito que esse livro foi um dos melhores contemporâneos escritos por Marion, junto com todos os da série "Light". Nesse livro ela dá vazão aos novos momentos de liberdade sexual vivido pelas mulheres do início dos anos 80. Mas não é bem sobre isso que o livro trata...


Leslie, uma psicóloga, e sua irmã Emilie mudam-se para uma linda casa próxima da Golden Gate, em São Francisco e depois ficará sabendo que ali morara uma senhora de grande prestígio nos círculos esotéricos e mágicos.

Mas sendo ela, Leslie, e sua irmã mais nova, Emilie, ambas muito materialistas e pouca afeitas à religiões, seitas e ocultismo, ela vai demorar a se dar conta de que coisas - que fogem à razão e ao que é considerado normal pelos psicólogos - estão acontecendo com ela e com muitas pessoas - inclusive com pacientes seus. 
A  princípio a palavra para os fenômenos é "poltergeist" (e não tem nada a ver com o filme "Poltergeist, o Fenômeno, que aliás é mencionado com ironia no livro).
O livro vai tratar do tema "poltergeist" (ainda hoje tema tabu e totalmente ignorado pela ci ência convencional),com muita seriedade. Leslie fica horrorizada ao descobrir que muitos daqueles fenômenos, como batidas, toque na campainha sem ninguém por perto, telefone tocando a cada cinco minutos (mesmo com telefone desligado da tomada),etc., são de fato causados por ela ou por seu subconsciente.

Mas o livro vai muito, muito além. Mostra que Leslie, mesmo sendo uma materialista teimosa, irá procurar livros e vai parar justamente na livraria de ocultismo de Claire Moffat. Essa mulher simpática e inteligente vai dar-lhe conselhos, que serão no decorrer da história totalmente ignorados por Leslie... e isso vai lhe custar caro.

O livro tem romance (e que romance!), cenas de um terror muito suave - nada de repulsivo, podem ficar tranquilos os que não gostam de terror nojento - e o desenrolar bastante fluído, com pequenos trechos de "livros" falando sobre os fenômenos paranormais, o que de certa forma, desperta a curiosidade do leitor para isso.

Um ótimo livro, com final eletrizante.

A COLINA DAS BRUXAS - 1990

Embora o livro tenha sido lançado em 1990, a narrativa é encenada nos coloridos e maluquinhos anos 70.

A protagonista é bem diferente da centrada, equilibrada e amadurecida Leslie, que tem um trabalho bem remunerado, mantém a casa e ajuda a irmã mais nova, atuando como uma espécie de mãe substituta.


Aqui, a nossa protagonista é uma garota de 20 e poucos anos, totalmente em acordo com a sua época, sem nenhum tipo de preconceito no que concerne à vida sexual. Uma jovem totalmente "sexo-drogas-rock-and-roll", embora a narrativa não foque exatamente nesses temas...

Não foi um livro que eu tenha gostado exatamente: É mais curto que os demais, a impressão é que a autora ainda estava rascunhando a série "Light", muito superior a essa série inicial, em todos os sentidos. E que esses dois primeiros livrinhos foram apenas a apresentação de Claire, que vai aparecer em todo os esplendor de sua aura gentil, na série principal.

Enfim: A jovem Sara perde os pais e o irmão (!), quase todos de uma só vez, e sem emprego fixo e renda para pagar o aluguel, manda-se para um lugarejo perdido no oco do "sertão" norte-americano, na Nova Inglaterra, para tomar posse de sua "herança", uma velha e horrorosa casa que pertencera à "menina" Latimer, sua tia-avó também chamada de Sara.

Todas as Saras Latimers tiveram mortes violentas...


Esse é o velho refrão, repetido inúmeras vezes por seu pai que odiava, por sinal, todos os seus parentes e ancestrais Latimers, manchados pela nódoa da bruxaria.

Mas a jovem Sara, descolada e corajosa, assim que perde a família vai ao encontro do seu destino, fosse esse qual fosse.

O livro mostrará o embate entre a Sara atual e a Sara ancestral (a bruxa), seus terrores ao perceber que poderia estar sendo usada pelos estranhos moradores do local e o clima gótico - recheado com menções sobre sabás, cemitérios, corvos, casas velhas, seitas malignas - é típico para livros da época (anos 80).

E tem a parte picante. Acredito que esse foi primeiro livro da autora que eu li, que trata do homossexualismo e do sexo apenas pelo prazer, com pitadas generosas de lesbianismo, sexo grupal e sadomasoquismo. 

Um livro razoável, com final satisfatório. Poderia ter sido melhor, mais profundo e mais bem desenvolvido: Mas vale como "apêndices" - como eu disse antes -  da série Light.


Paula Brackston - A Filha da Feiticeira [resenha]

BY Jossi Slavic Genius IN 1 comentário


Uma bruxa que é o protótipo do anjo bom...

Meu nome é Elizabeth Anne Hawksmith, tenho 384 anos. Cada era exige um novo diário. Assim sendo, começa este Livro das Sombras. Estreia de Paula Brackston no Brasil, A filha da feiticeira é uma história repleta de magia e feitiçaria, ideal para aqueles que buscam uma trama fascinante. O livro é maravilhosamente escrito, possui personagens bem-construídos e uma trama que prende o leitor até o fim. 
Editora Bertrand Brasil, 2013


O QUE ACHEI:

De início, achei que seria apenas outra história vazia, mais voltada ao público adolescente e ao entretenimento fútil. Fique surpreendida de modo agradável, porém, ao notar que a história não era apenas mais um romancezinho água-com-açúcar-adolescente, mas tinha todo um contexto histórico bastante desenvolvido e rico em detalhes e descrições de locais e culturas do passado.

Esse aspecto diferencia uma boa obra - seja ela infantil, juvenil ou para jovem adulto - de uma obra meramente descartável.

Tem um bom ritmo narrativo, um ambiente (três ambientes, na verdade) convincente, retratando de maneira vívida, principalmente, a vida de uma família de camponeses medievais. 

Gostei muito dessa primeira parte da vida de Elizabeth, bem como do enfoque dado à perseguição às bruxas - tema esse bastante batido e rebatido atualmente, mas que dá margem à inúmeros pontos de vista e divergências. Inclusive é um dos argumentos usados, atualmente, para uma certa "implicância" de agnósticos e ateus contra a religião cristã. Mas enfim, o fato é que o assunto dá um bom caldo de opiniões e debates. E de enredos literários, claro.


Paula Brackston me pareceu estar bem a par das diversas vertentes da feitiçaria moderna, moldando sua história em torno de duas principais: A feitiçaria voltada à natureza, a Wicca moderna; e a magia negra, esta sim, voltada totalmente aos poderes e caminhos da chamada "mão esquerda" pelos esotéricos.

Gideon Masters encarna o vilão charmoso e perigoso, figura típica e meio clichê. Aliás, clichês não faltam e nem por isso a história é menos gostosa de ler, encantadora pela mensagem que passa através de sua corajosa protagonista, Bess e pelo valores morais que ela defende: Sendo uma bruxa "boazinha" até o fim, Bess não hesita em tentar resgatar o seu erro (ou talvez o erro de sua mãe), por ter sido iniciada numa prática tão maligna.

Um livro bacana, interessante, com muitas cenas de suspense, comoção (principalmente quando Bess nos relata o seu passado) e o melhor: A mensagem positiva de que, por mais revezes que enfrentemos na vida, a esperança é sempre uma luz maravilhosa... E nunca devemos nos render à dor, ao sofrimento e à perseguição dos maus.


Tess Gerritsen - O Dominador [resenha]

BY Jossi Slavic Genius IN , -



Após o estrondoso sucesso em O Cirurgião, a personagem Jane Rizzoli está de volta em mais um livro empolgante. Aqui não existem estereótipos. Jane Rizzoli é durona, mas também humana; e seu nêmesis, Warren Hoyt, é genuinamente perverso, sem nenhuma sombra de culpa ou remorso por seus crimes. Ainda mais perturbador e eletrizante, O DOMINADOR continua a trama do romance anterior. Depois de levar para trás das grades o psicopata Warren Hoyt - mais conhecido como "O Cirurgião" -, a detetive se vê diante de um maníaco que reproduz as assustadoras atrocidades de Warren. No decorrer das investigações, Jane vai descobrir que há muito mais ligações entre os dois assassinos do que ela supunha.

O QUE ACHEI:

Quando se supunha que o horror tinha terminado - em O Cirurgião - eis que a tortura prossegue! Neste livro, que li lentamente e com entusiasmo cada vez menor à medida que as atrocidades do "aprendiz de feiticeiro" iam se tornando piores, Jane Rizzoli se mostra mais simpática que no primeiro livro. E muito, muito mais humana e sensível.

Se no livro anterior temos uma policial correta, porém dura e severa, que sofre por ser considerada "feia e chata", neste livro ela desabrocha para a vida, apesar da tremenda perseguição que vai sofrer com o vingador do monstro (do assassino do livro anterior). E vai até render algum romance, entremeado, é claro, de cenas macabras, sangrentas, ambientes inóspitos e cheios de cadáveres e outras coisinhas arrepiantes e nada saudáveis para a mente...

Como no primeiro livro, esse aqui me fez frear a leitura. Não gosto, não estou gostando desse estilo cru e "realista" que Gerritsen tem de mostrar cenas de revoltante crueldade e flashes da mente psicopata. Este criminoso, que não sofre as penas da sensibilidade humana normal e não se cansa de ficar imaginando outras cenas, mais e mais dantescas, nos enoja duplamente: Pelo que faz e pelo que deseja fazer às mulheres.

Outro ponto de crucial importância nesse tipo de literatura, é a preferência dos escritores policiais (tais como Gerritsen, Chelsea Cain, Patricia Cornwell, Stieg Larsson, Asa Larsson, etc.), de mostrar assassinatos de mulheres - e com todos os requintes de crueldade imagináveis. Entendo isso como um pendor estranho (principalmente quando se trata de escritoras), já que nós mulheres geralmente temos nossa sensibilidade mais aguçada e menor tolerância à cenas cruéis, macabras ou de tortura. No entanto, é exatamente o que vem acontecendo na literatura policial.

Estava lendo essa série, e já iniciado o terceiro livro - na esperança de que algo, alguma coisa mudasse nos cenários - mas percebo que vai seguir sempre a mesma linha. Não é possível que o clima mude, já que Gerritsen trabalha com a atuação de uma policial e uma médica legista. E, mesmo que no terceiro livro (O Pecador), a "Doutora Morte" - como é chamada pelos conhecidos a Dra. Isles - se mostre mais humana e sensível - o clima do livro é ainda mais medonho. Tratará já de cara do assassinato crudelíssimo de duas freiras... Naturalmente os leitores cristãos irão apreciar ainda menos esse livro.

Enfim, "O Dominador" é da mesma cepa do "O Cirurgião". E no final, engraçado... nunca parece que o mal foi derrotado. É como se sempre ficasse uma pontinha solta que fará com que toda a trama se desmanche.



Tess Gerritsen - O Cirurgião [resenha e crítica]

BY Jossi Slavic Genius IN , 4 comentários


Tess Gerritsen é a nova revelação norte-americana do thriller médico. Aclamada por seus fãs como uma versão feminina de Robin Cook, seus romances chegaram às principais listas de mais vendidos nos EUA. O CIRURGIÃO, seu primeiro romance publicado no Brasil, teve os direitos de publicação vendidos para vários países, entre eles Alemanha, França e Itália. O livro narra a história de um serial killer que invade o quarto de mulheres à noite para dissecá-las vivas, arrancando seus úteros.



O QUE ACHEI:

Meu primeiro contato com essa autora nipo-americana foi com o livro "Gravidade" - que mistura thriller médico, suspense e ficção científica (também resenhado aqui). O segundo, foi "Corrente Sanguínea", outro thriller só que não tão... médico assim. É mais um suspense-terror bastante profundo e forte, que prende o leitor pelos sinuosos meandros do mistério, do funesto, do horror indizível e dos segredos da narrativa.

Quando peguei a série "Rizzoli & Isles" [que virou um seriado televisivo, como a maioria dos bestsellers internacionais de língua inglesa, obviamente...], pensei que sentiria a mesma emotividade, a mesma ansiedade para desvendar mistérios e punir bandidos. Ou pelo menos, para chegar a uma conclusão plausível no final da história, que ao menos satisfizesse a minha "sanha de leitora curiosa".


Não foi tão bom na minha opinião, como os dois primeiros livros independentes. Eu detesto séries, pois elas fazem com que você fique preso a uma determinada personagem por infindáveis livros. E, sinceramente? Não sei como essses autores estrangeiros (porque no Brasil os autores de livros em série são poucos, sendo as séries compostas de no máximo, 3 livros) conseguem ficar repetindo incansavelmente sobre a vida da criatura-protagonista, narrando e narrando diversas vezes tudo o que aconteu na sua vida, seu temperamento, seu jeito, sua aparência. Eu até pensei em criar uma série infanto-juvenil, mas com livros que podem ser lidos "à vontade", sem uma ordem pré-estabelecida e com um personagem de características marcantes e que possam ser resumidas em uma brevíssima descrição - cansa o autor, cansa o leitor ler repetidas vezes a descrição do mesmo protagonista.

Essa série de Gerritsen poderia ser muito boa, e talvez até seja para a maioria dos leitores: Tem duas protagonistas [na série de tv elas são o protótipo das anglo-americanas lindas-e-maravilhosas] inteligentes e corajosas, vários vilões terríveis, mistérios aparentemente insondáveis mas que acabam sempre desvendados... E no geral, seus vilões acabam pagando (mais ou menos) pelos seus crimes.

Entretanto não consigo mais ler tanto livro sobre mortes sangrentas, crimes horrendos, psicopatas com as mais degradantes taras e protagonistas que "adoram" cadáveres! Sim, as novas séries policiais deixaram de lado aquele elegante e charmoso estilo "Agatha Christie" de ser. Não mais existem os livros de mistério apenas pelo mistério ou os bons suspenses psicológicos e de aventuras. Ou mistérios que envolvam bons detetives, charmosos "Monsieurs" Poirots, Maigrets, Sherlocks Holmes, engraçadas Misses Marples, corajosos detetives como James Bond e afins. Hoje em dia os livros teimosamente batem sempre na mesma tecla, nos enchendo de náusea, horror e depressão: Assassinos em série, chacinas nojentas, muito sangue, muitos corpos em decomposição, descrições aflitivas de necrotérios ou cemitérios. E o pior... é que os leitores parecem apreciar essas coisas deprimentes, tanto é que os livros sobre isso se sucedem aos montões: Tess Gerritsen, Patricia Cornwell, Asa Larsson, Chelsea Cain e por aí afora.

Muito bem, parece que minha digressão desta vez foi forte, mas acho que é uma boa maneira para nos introduzirmos no mundo de "O Cirurgião" de Gerritsen.

Como diz na prórpia sinopse, o psicopata é o responsável pelo assassinato de mulheres de maneira muito típica. Ele usa métodos e instrumentos médicos e faz seus cortes (as descrições detalhadas são totalmente mórbidas) e sua tortura das vítimas de maneira profissional. Detestei esses detalhes.

A detetive Jane Rizzoli é o personagem mais cativante da história, uma morena entroncada [pela descrição do livro, nada parecida com a castanha clara alta e esguia do seriado], birrenta, valente e em eterna disputa com os seus colegas homens. De certa forma, esse temperamento agressivo e esse jeito de menina brigona de Jane a torna mais humana, mais normal aos olhos do leitor. 

De início ela parece antipática, o oposto da protagonista-chave, que na verdade é uma "protagonista temporária" (apenas nesse livro) e que é a moça (médica) perseguida pelo estranho psicopata com pendores para cirurgião.

Daí o título do livro.

O enredo seria muito bom se o enfoque fosse menos brutal. Afinal os leitores querem fugir um pouco da rotina, mas não se desviar tanto assim, não é? Crimes tão hediondos existem sim, temos aí nos noticiários todos os dias. Coisas tenebrosas. Então não seria mais elegante, mais interessante e agradável ficar-se envolvido e curioso, sem esbarrar-se com tantas descrições macabras? Como nos bons romances policiais do passado?

Enfim essa é a minha opinião. O livro, como eu disse, peca por esses detalhes mórbidos descritos exaustivamente, mas brilha pela trama bem bolada da escritora e pelo final bem trabalhado.

Lembrando que... aqui a legista Dra. Isles aparece muito pouco, mas será mais atuante nos demais livros dessa série... que eu, sinceramente, não sei se terei estômago para ler.


Manel Loureiro - O Último passageiro

BY Jossi Slavic Genius IN , 4 comentários


Valkirie, o último passageiro e uma tremenda armadilha de mistério e terror

Agosto de 1939. Um enorme transatlântico chamado Valkirie aparece vazio e à deriva no Oceano Atlântico. Um velho navio cargueiro o encontra e decide rebocá-lo até o porto, mas não sem antes descobrir que nele há um bebê de poucos meses... e algo mais que ninguém é capaz de identificar. Por volta de setenta anos depois, um estranho homem de negócios decide restaurar o misterioso transatlântico e repetir, passo a passo, a última viagem do Valkirie. A bordo, presa em uma realidade angustiante, a jornalista Kate Kilroy busca uma boa história para contar. Mas acabará descobrindo que somente sua inteligência e sua capacidade de amar podem evitar que o transatlântico pague novamente um preço sinistro durante o percurso. Inquietante. Enigmático. Viciante. Bem-vindo ao Valkirie. Você não poderá desembarcar…mesmo se quiser. 



O QUE ACHEI:
Um navio, um bebê e uma estranha realidade.
Ótimo livro!

Não conseguia parar de ler, desde o iniciozinho, quando o tremendo e assustador Valkirie surge no mar, completamente escuro e vazio. Dá para sentir na pele os arrepios que os marinheiros ingleses sentiram, quando aquela névoa densa e gelada os cercou e depois abriu-se, para revelar a estrutura imensa do transatlântico. Nada faltava lá, nem mesmo uma mesa imensa completamente posta para um jantar... nada faltava. Só as pessoas! Com exceção de um único e pequeno passageiro, um bebê, sozinho, no meio do salão de baile...


É assim que começa a trama hipnótica do espanhol Manel Loureiro, escritor que já me conquistou com sua trilogia "Apocalipse Z", que tem uma linguagem ágil, fluída e de fácil compreensão.

Este romance, porém, é ainda melhor, pois tem um tema pouco aproveitado pelos escritores de ficção. Não vou dizer qual é, pois já seria "spoilear", mas digamos que tenha a ver com o sobrenatural. Claro, que tem a ver com terror e sobrenatural todos já sabem, mas acho que poucos leitores tem uma ideia do que realmente os espera dentro daquele tenebroso "Valkirie".


O mais curioso na história é a estupenda armação de eventos, todos entrelaçados e aparentemente caóticos, que deixa o leitor, a um tempo nervoso, inquieto e ansioso para descobrir uma determinada ordem naquele caos. E a ordem vem, mas aos poucos. Aos pingos, deixando-nos cada vez mais curiosos para saber o que virá a seguir.

Kate Kilroy é uma jornalista que perdeu o marido, há poucos meses e resolve aceitar o desafio de investigar a história daquele transatlântico que, aparentemente foi esquecido pela história... Tudo para sair um pouco da depressão e mergulhar em um trabalho instigante. Mas ela fica intrigada com a história. Como foi? Onde teriam ido parar os passageiros? Por que o tal Valkirie tinha fama da "navio amaldiçoado"?

E a história do bebê judeu encontrado lá dentro - sendo o navio nazista? E aí começam a acontecer as coisas. Ou melhor, os acontecimentos na mão desse escritor talentosíssimo não acontecem, fluem, deslizam. Nada de páginas e mais páginas de descrições enroladas, insossas ou irrelevantes - pecado de muitos escritores bestsellers mais famosos, como Stephen King, por exemplo. Manel Loureiro, com três livros publicados anteriormente (série Apocalipse Z) que fizeram estrondoso sucesso, repete aqui a receita do bestseller vitorioso.

Não parei de ler, literalmente devorei o livro (o ebook, para ser mais precisa). E dei um suspiro de tristeza quando o final chegou.

Super recomendado para os fãs do sobrenatural e que preferem narrativas rápidas, assustadoras, sobrenaturais e com ritmo fluído e ágil. 

Ah, sobre o final... É um pouco complicado para entender, mas não vou dar pistas. Só direi que me decepcionei com um único pontinho: Gostaria de saber sobre o "após", o que aconteceu com a protagonista depois de tudo e se, por acaso, ela tornou a rever o velho e sábio judeu... ou teve novos contatos com seu grande amor. Só lendo para você entender. ;)



Algernon Blackwood - Os Salgueiros

BY Jossi Slavic Genius IN , , 1 comentário


Um conto arrepiante, o "melhor conto fantástico já escrito", segundo H. P. Lovecraft


O QUE ACHEI:
De um dos escritores da mesma safra de H. P. Lovecraft, Ambrose Bierce e Auguste Derleth, Algernon Blackwood também tem o mesmo estilo "sombrio e suave". Nada de cenas escandalosamente sangrentas - aos moldes do terror moderno. O máximo de escândalo que se notaria numa obra desses autores seria, por exemplo, a aparição do horror inominável, de uma aberração como nunca se viu na terra, ou outras expressões de caráter mais ou menos descritivas de monstros pré-históricos e infernais. Mas nada de muito sangrento, nada de corpos em decomposição, cenas escabrosas de zumbis podres "com líquido purulento" lhe escorrendo pelas entranhas. Nada de coisas nojentas assim.


O horror sobrenatural gótico é do estilo que mais aprecio: Assustador, mais sombra do que matéria, mais abstrato do que concreto, mais suspense do que ação sangrenta. Suave e poderosamente, o leitor adentra o mundo escuro de visões infernais, de criaturas surreais, de mundos paralelos - embora tão reais quanto o nosso. Não raro, os personagens (principalmente os de Lovecraft) são lançados numa paródia de realidade e, embora ainda mentalmente sãos, podem enlouquecer no transcorrer da história. Geralmente esses enredos não me agradam: Prefiro personagens lúcidos e vigorosos, que aceitem o aspecto sobrenatural da realidade e consigam, de quebra, sair dele relativamente intactos e salvando o maior número possível de vítimas... Sim, gosto de heróis!

Não é bem o caso deste conto, Os Salgueiros. Aqui há uma atmosfera de sombras, ventos e tempestade, quando dois amigos se perdem durante um passeio de canoa e vão parar em uma ilhota, onde precisarão acampar já que o nível da água do rio sobre e os impede de partirem. Isso os prende e é lá que passam a noite... E que noite!

O conto que baixei daqui, do Site Lovecraft. Obrigada aos tradutores!



Stephen King - As crianças do milharal

BY Jossi Slavic Genius IN , 2 comentários


 As Crianças do Milharal - Stephen King

O milharal estava crescido e cerrado, quase a ponto de produzir. Seria possível enveredar por aquelas fileiras regulares e cheias de sombra e ter que passar o dia inteiro procurando o caminho de volta. Ali, porém, a regularidade das fileiras fora quebrada; vários talos de milho estavam quebrados e caídos para os lados. E o que seria aquilo, mais além, na sombra?

O QUE ACHEI:

As crianças do milharal assombrado...

Este é um dos primeiros contos de Stephen King que eu li e que  circulam pela Internet desde que a rede se tornou popular e textos de autores famosos (ou nem tão famosos) passaram a fazer parte do conteúdo de sites de todo o mundo.

Reli o conto há pouco tempo e, como da primeira vez, eu me surpreendi com a qualidade e originalidade do enredo e com o final assustador - como a maioria dos finais de SK. 



Em todo filme ou livro de terror que envolve crianças sempre há um toque mais sombrio e desesperador, talvez porque nós recusamos a aceitar que o mal, o mal profundo e abismal, possa tocá-las. Ou que uma criança possa realmente ser pérfida e cruel por natureza. Embora estudos recentes na psicologia já tenham comprovado que, sim, existem crianças com tendências genéticas para a maldade - os futuros psicopatas - nós ainda teimamos em rejeitar tal ideia. 

Em "As crianças do milharal" SK faz justamente esse doloroso jogo de gato e rato entre crianças e adultos e um misterioso 'deus' que, para todos os efeitos, só traz o terror, em seu estado mais puro. Um conto que faz parte das primeiras safras de contos horripilantes de Stephen e que, ao contrário dos trabalhos mais recentes dele, ainda tem um tom menos irreverente e mais sério.

Muito bom para pessoas que apreciam o gênero "terror-com-final-originalmente-terrível". ;)