Manel Loureiro - O Último passageiro

BY Jossi Slavic Genius IN , -


Valkirie, o último passageiro e uma tremenda armadilha de mistério e terror

Agosto de 1939. Um enorme transatlântico chamado Valkirie aparece vazio e à deriva no Oceano Atlântico. Um velho navio cargueiro o encontra e decide rebocá-lo até o porto, mas não sem antes descobrir que nele há um bebê de poucos meses... e algo mais que ninguém é capaz de identificar. Por volta de setenta anos depois, um estranho homem de negócios decide restaurar o misterioso transatlântico e repetir, passo a passo, a última viagem do Valkirie. A bordo, presa em uma realidade angustiante, a jornalista Kate Kilroy busca uma boa história para contar. Mas acabará descobrindo que somente sua inteligência e sua capacidade de amar podem evitar que o transatlântico pague novamente um preço sinistro durante o percurso. Inquietante. Enigmático. Viciante. Bem-vindo ao Valkirie. Você não poderá desembarcar…mesmo se quiser. 



O QUE ACHEI:
Um navio, um bebê e uma estranha realidade.
Ótimo livro!

Não conseguia parar de ler, desde o iniciozinho, quando o tremendo e assustador Valkirie surge no mar, completamente escuro e vazio. Dá para sentir na pele os arrepios que os marinheiros ingleses sentiram, quando aquela névoa densa e gelada os cercou e depois abriu-se, para revelar a estrutura imensa do transatlântico. Nada faltava lá, nem mesmo uma mesa imensa completamente posta para um jantar... nada faltava. Só as pessoas! Com exceção de um único e pequeno passageiro, um bebê, sozinho, no meio do salão de baile...


É assim que começa a trama hipnótica do espanhol Manel Loureiro, escritor que já me conquistou com sua trilogia "Apocalipse Z", que tem uma linguagem ágil, fluída e de fácil compreensão.

Este romance, porém, é ainda melhor, pois tem um tema pouco aproveitado pelos escritores de ficção. Não vou dizer qual é, pois já seria "spoilear", mas digamos que tenha a ver com o sobrenatural. Claro, que tem a ver com terror e sobrenatural todos já sabem, mas acho que poucos leitores tem uma ideia do que realmente os espera dentro daquele tenebroso "Valkirie".


O mais curioso na história é a estupenda armação de eventos, todos entrelaçados e aparentemente caóticos, que deixa o leitor, a um tempo nervoso, inquieto e ansioso para descobrir uma determinada ordem naquele caos. E a ordem vem, mas aos poucos. Aos pingos, deixando-nos cada vez mais curiosos para saber o que virá a seguir.

Kate Kilroy é uma jornalista que perdeu o marido, há poucos meses e resolve aceitar o desafio de investigar a história daquele transatlântico que, aparentemente foi esquecido pela história... Tudo para sair um pouco da depressão e mergulhar em um trabalho instigante. Mas ela fica intrigada com a história. Como foi? Onde teriam ido parar os passageiros? Por que o tal Valkirie tinha fama da "navio amaldiçoado"?

E a história do bebê judeu encontrado lá dentro - sendo o navio nazista? E aí começam a acontecer as coisas. Ou melhor, os acontecimentos na mão desse escritor talentosíssimo não acontecem, fluem, deslizam. Nada de páginas e mais páginas de descrições enroladas, insossas ou irrelevantes - pecado de muitos escritores bestsellers mais famosos, como Stephen King, por exemplo. Manel Loureiro, com três livros publicados anteriormente (série Apocalipse Z) que fizeram estrondoso sucesso, repete aqui a receita do bestseller vitorioso.

Não parei de ler, literalmente devorei o livro (o ebook, para ser mais precisa). E dei um suspiro de tristeza quando o final chegou.

Super recomendado para os fãs do sobrenatural e que preferem narrativas rápidas, assustadoras, sobrenaturais e com ritmo fluído e ágil. 

Ah, sobre o final... É um pouco complicado para entender, mas não vou dar pistas. Só direi que me decepcionei com um único pontinho: Gostaria de saber sobre o "após", o que aconteceu com a protagonista depois de tudo e se, por acaso, ela tornou a rever o velho e sábio judeu... ou teve novos contatos com seu grande amor. Só lendo para você entender. ;)



Algernon Blackwood - Os Salgueiros

BY Jossi Slavic Genius IN , , -


Um conto arrepiante, o "melhor conto fantástico já escrito", segundo H. P. Lovecraft


O QUE ACHEI:
De um dos escritores da mesma safra de H. P. Lovecraft, Ambrose Bierce e Auguste Derleth, Algernon Blackwood também tem o mesmo estilo "sombrio e suave". Nada de cenas escandalosamente sangrentas - aos moldes do terror moderno. O máximo de escândalo que se notaria numa obra desses autores seria, por exemplo, a aparição do horror inominável, de uma aberração como nunca se viu na terra, ou outras expressões de caráter mais ou menos descritivas de monstros pré-históricos e infernais. Mas nada de muito sangrento, nada de corpos em decomposição, cenas escabrosas de zumbis podres "com líquido purulento" lhe escorrendo pelas entranhas. Nada de coisas nojentas assim.


O horror sobrenatural gótico é do estilo que mais aprecio: Assustador, mais sombra do que matéria, mais abstrato do que concreto, mais suspense do que ação sangrenta. Suave e poderosamente, o leitor adentra o mundo escuro de visões infernais, de criaturas surreais, de mundos paralelos - embora tão reais quanto o nosso. Não raro, os personagens (principalmente os de Lovecraft) são lançados numa paródia de realidade e, embora ainda mentalmente sãos, podem enlouquecer no transcorrer da história. Geralmente esses enredos não me agradam: Prefiro personagens lúcidos e vigorosos, que aceitem o aspecto sobrenatural da realidade e consigam, de quebra, sair dele relativamente intactos e salvando o maior número possível de vítimas... Sim, gosto de heróis!

Não é bem o caso deste conto, Os Salgueiros. Aqui há uma atmosfera de sombras, ventos e tempestade, quando dois amigos se perdem durante um passeio de canoa e vão parar em uma ilhota, onde precisarão acampar já que o nível da água do rio sobre e os impede de partirem. Isso os prende e é lá que passam a noite... E que noite!

O conto que baixei daqui, do Site Lovecraft. Obrigada aos tradutores!



Stephen King - As crianças do milharal

BY Jossi Slavic Genius IN , -


 As Crianças do Milharal - Stephen King

O milharal estava crescido e cerrado, quase a ponto de produzir. Seria possível enveredar por aquelas fileiras regulares e cheias de sombra e ter que passar o dia inteiro procurando o caminho de volta. Ali, porém, a regularidade das fileiras fora quebrada; vários talos de milho estavam quebrados e caídos para os lados. E o que seria aquilo, mais além, na sombra?

O QUE ACHEI:

As crianças do milharal assombrado...

Este é um dos primeiros contos de Stephen King que eu li e que  circulam pela Internet desde que a rede se tornou popular e textos de autores famosos (ou nem tão famosos) passaram a fazer parte do conteúdo de sites de todo o mundo.

Reli o conto há pouco tempo e, como da primeira vez, eu me surpreendi com a qualidade e originalidade do enredo e com o final assustador - como a maioria dos finais de SK. 



Em todo filme ou livro de terror que envolve crianças sempre há um toque mais sombrio e desesperador, talvez porque nós recusamos a aceitar que o mal, o mal profundo e abismal, possa tocá-las. Ou que uma criança possa realmente ser pérfida e cruel por natureza. Embora estudos recentes na psicologia já tenham comprovado que, sim, existem crianças com tendências genéticas para a maldade - os futuros psicopatas - nós ainda teimamos em rejeitar tal ideia. 

Em "As crianças do milharal" SK faz justamente esse doloroso jogo de gato e rato entre crianças e adultos e um misterioso 'deus' que, para todos os efeitos, só traz o terror, em seu estado mais puro. Um conto que faz parte das primeiras safras de contos horripilantes de Stephen e que, ao contrário dos trabalhos mais recentes dele, ainda tem um tom menos irreverente e mais sério.

Muito bom para pessoas que apreciam o gênero "terror-com-final-originalmente-terrível". ;)


Victoria Holt - A Máscara da Sedutora [resenha]

BY Jossi IN , , 1 comentário



A Máscara da Sedutora 
The Mask of Enchantress - Victoria Holt

PAIXÕES PROIBIDAS E IDENTIDADES TROCADAS - UM SOBERBO RELATO SOBRE UMA MULHER ESTIGMATIZADA PELA TRAGÉDIA

Filha ilegítima de um fratricida, Suewellyn Mateland é obrigada a deixar para sempre o castelo de seus ancestrais. Tornada órfã por uma catástrofe, é forçada a usar um perigoso disfarce para sobreviver. Tomada de paixão, é perseguida por murmúrios sinistros e cartas furtivas... É o legado dos Mateland que a persegue. Terá que abrir mão de sua fabulosa herança para poder viver o amor a que tem direito....

O QUE ACHEI:

Um belo romance gótico. O início nos leva a acreditar em uma história juvenil ou para jovem adulto, já que se foca mais na infância de Suewellyn (nomezinho difícil esse!). Na verdade, é um longo romance que seria muito bem-vindo em uma nova edição, revista e atualizada, com nova capa, etc., pois o enredo é de verdade encantador; apesar de muito suspense, dramas, reviravoltas súbitas, não é pesado: É uma história complexa e, ao mesmo tempo, muito leve. Ideal para mulheres e adolescentes, sem se bandear para detalhes mórbidos ou crimes sanguinolentos, a história nos envolve com suavidade e pitadas certas de surpresas, mistérios e alguns sustos.

A pequena Suewellyn passa boa parte de sua infância em uma residência rural da Inglaterra vitoriana, criada por uma "tia" chata e mal-humorada e sendo acusada pelos colegas de escola de ser uma "bastarda" - palavra essa que a menina mal compreende o que significa... Porém o tempo ela virá a descobrir alguma coisas a respeito da bela e doce 'Srta. Anabel', que sempre a visita... E sobre o garboso Sr. Joel, que está sempre ao lado da Srta. Anabel.


Na próxima parte da história iremos conhecer a orgulhosa família dos Mateland, possuidora de um soberbo castelo e grande riqueza. As irmãs Campion terão destinos muito diversos: Uma delas casa-se com um pobre pároco de aldeia - e virá a ser mãe de Anabel, enquanto a outra irmã tomará por esposo um nobre Mateland e terá por filha a doce e ingênua Jessamy.

A mãe de Anabel morre cedo, ficando a cargo da tia - a orgulhosa dama e senhora do castelo Mateland - a educação desta última. Ambas as primas, Anabel e Jessamy crescerão juntas, em um clima de alegria e camaradagem, estando a bela e estouvada Anabel sempre em primeiro plano. Jessamy, por ser mais ingênua e recatada, embora bonita, é considerada (pelo menos pelos rapazes casadouros do local) menos atraente...

O resultado disso tudo é uma trama incandescente, onde Anabel, Jessamy e Joel, outro Mateland, formarão um terrível triângulo amoroso. E cujo resultado serão duas filhas... Adivinhem quem serão essas filhas.

O pior, entretanto, ainda estará por vir... Um castelo sombrio, com vários personagens de segundo plano mas todos importantes dentro da trama, tecendo intrigas; um casal apaixonado e uma traição imperdoável; dois irmãos rivais, um honesto (embora não tanto assim!) outro totalmente cafajeste...



E, após uma primeira reviravolta, o casal apaixonado irá fugir para uma ilha da Austrália com sua amada filhinha... Entretanto, eu achei que a autora negligenciou muito a honradez de seus protagonistas, ao tornar Joel um marido tão traiçoeiro e mesquinho, ao ponto de fugir com outra mulher e abandonar a esposa que tanto o amava, sem votar a ela um único pensamento de carinho ou ao menos, piedade! E as duas primas, tão unidas e tão dedicadas uma à outra?

Seja como for, pulando essa parte perturbadora, vamos encontrar anos depois Suewellyn já moça, às voltas com sua família - não legal, mas natural. E mais para frente, a jovem Suewellyn irá demonstrar muito mais honradez e caráter que seus progenitores, apesar da farsa que tentará levar avante e se apossar do sinistro, do misterioso e amaldiçoado castelo Mateland...

O final é muito interessante, com grande suspense e jogos de gato e rato, onde Suewellyn terá de enfrentar todo o passado terrível daquela família.



Tess Gerritsen - O Cirurgião [resenha]

BY Jossi Slavic Genius IN , , -



O Cirurgião - Rizzoli & Isles Vol.1 - Tess Gerritsen

Tess Gerritsen, neste livro assustador, narra o rastro de sangue deixado por um assassino cruel. O agressor entra na casa de suas vítimas na calada da noite e segue até o quarto delas. Mergulhadas em sono profundo, as mulheres ignoram que irão acordar para um terrível pesadelo... A precisão com que ele investe contra as mulheres, somada à crueldade de agressão - útero das vítimas é arrancado -, sugere que o responsável pelas atrocidades seja um médico psicopata. Os jornais de Boston passam então a chamá-lo de "O Cirurgião". Em um livro de tirar o fôlego e com descrições minuciosas, a autora nos apresenta a um rico universo de personagens, ao criar um romance de suspense e profundidade inéditos. 

O QUE ACHEI:
Primeiro livro da série denominada "Rizzoli e Isles" (nomes das duas protagonistas da série, uma detetive e outra médica legista), esse livro me prendeu. Mas com algumas ressalvas...

Estão dizendo por aí que Tess Gerritsen, uma sino-americana muito talentosa para esses best sellers com suspense "médico"(!), é a sucessora e herdeira da fama de Robin Cook. Sei lá. Esse livro teve duas edições já, aqui no Brasil: a primeira pela Bestbolso (2011) e a segunda pela Record (2013). O que me chamou a atenção para a obra de Gerritsen foi justamente a similaridade entre a temática "médica" (pois sempre amei Robin Cook) dela com a de R. Cook. Entretanto... a coisa não é bem assim.

Comecei lendo Gravidade, onde ela mistura muita ficção científica com medicina moderna, o que me agradou demais "da conta", e fui levada pelo desejo de ler mais obras dela. Passei para Corrente Sanguínea, livro que me deixou ainda mais sedenta do suspense perfeito (embora eu tenha abominado certas cenas sangrentas). No segundo já havia a figura de um assassino serial, coisa que não gosto tanto dentro do terror médico - abomino tudo o que se relaciona com essas criaturas. Mas enfim... o livro tem um mistério incrível, muita adrenalina e mulheres corajosas, além de um ou dois homens bacanas. Gostei.

E achei que era hora de encarar a tal série Rizzoli & Isles (embora temendo o pior, já que odeio cenas de médicos legistas cortando e fatiando cadáveres ou cadáveres de qualquer jeito que provoque nojo ou repulsa). O primeiro livro foi esse. O Cirurgião, que de cirurgião nada tinha...

O suspense é bom, mas é preciso muito estômago. A protagonista não é exatamente a policial Jane Rizzoli, mas outra médica (Isles nem aparece nesse primeiro livro), a dra. Catherine Cordell, que foi vítima no passado de um assassino de mulheres e saiu-se muito bem, embora com alguns traumas. Rizzoli aqui é mais uma especie de adjunta do detetive Moore, por quem sente alguma atração. 
Rizzoli em uma cena de crime - cena do seriado seriado Rizzoli & Isles

O livro tem cenas dantescas, principalmente quando narra (em mórbidos e repugnantes detalhes) as cenas do assassino e mostra seus pensamentos. Eu pulava uma parte ou outra, mas por outro lado, o livro me prendeu. Meio à marra, mas prendeu.

Não simpatizei com o estilo de narrativa dantesca - Robin Cook não faz isso exatamente nos seus livros, ele se mantém mais ou menos à distância dos monstros assassinos - mas no todo, o livro é bom. Não ótimo, excelente, incrível, perfeito (adjetivos exagerados que li no Skoob), mas bom. Tirando cenas do assassino...

Estou agora no segundo livro, mas já ando devagar, quase parando... a continuação de O Cirurgião (O Dominador) consegue ser ainda mais repugnante (o que essa escritora tem na cachola?). Não sei se vale a pena continuar, mas enfim...

Se você tem estômago (e mente) fortes, vá em frente. E uma frase de Fernando Pessoa que combina muito bem com essa série:



Stephen King - Saco de Ossos [resenha]

BY Jossi Slavic Genius IN , , -


Saco De Ossos - Stephen King

Mike Noonan é um romancista de sucesso que vê sua vida subitamente transformada com a morte da esposa Jo. Quatro anos já se passaram e o sentimento é o mesmo - o desânimo, a tristeza, a sensação de que nunca mais será capaz de escrever. Diante da tela branca do computador, ele vê o vazio doloroso que passou a dominar seus dias. Nem mesmo o sono lhe traz alívio. Noonan é agora atormentado por terríveis pesadelos com Sara Laughs e a casa do lago - o recanto de sonhos onde ele e Jo foram tão felizes. Voltar à pequena cidade. Esta parece ser a única saída. Mike sente que precisa enfrentar o passado e tentar reencontrar seu caminho.

Sara Laughs, no entanto, já não é a mesma. Apesar da aparente tranqüilidade de sempre, sua comunidade vive atormentada pelo domínio cruel do milionário Max Devore, que não mede esforços para atingir seu grande objetivo: arrancar a neta de três anos da guarda da jovem mãe viúva. Pouco a pouco, Mike redescobre a paixão.

Mike Noonan reencontra um motivo para seus dias, mas a luta não será fácil. Além da fúria de Max Devore, Noonan terá de enfrentar forças estranhas e malignas que agora dominam Sara Laughs. Ele terá de descobrir de onde vêm os pesadelos cada vez mais terríveis que insistem em atormentá-los. Mike Noonan subitamente volta a escrever, mas não terá sossego até encontrar as respostas para as dúvidas que o atormentam. Que forças são essas que dominam a pequena cidade? O que esperam dela?

O QUE ACHEI:
Um livro que de início parece um pouco confuso, exatamente como ficará a cabeça de Mike Noonan após a morte da esposa. Naturalmente o costume de SK em fazer alguns rodeios e sua compulsão em detalhes - até mesmo detalhes aparentemente irrelevantes - podem tornar o início do romance monótono e cansativo. Entretanto, como veremos no decorrer da leitura, todos os pequenos detalhes descritos por ele terão o seu peso dentro da trama, nada é dito por dizer, de forma vazia, aleatória. 

Não gostei muito do início por esse motivo, a demora em se desenvolver a parte mais forte e dramática e/ou sobrenatural. Claro que, quando Noonan chega à casa do lago, coisas estranhas começam a acontecer, e nós leitores, claro, ficamos de orelhas em pé. Entretanto, até que o autor siga e junte todas as "migalhas de pão" deixadas pelo caminho narrativo e as atire todas dentro do foco central - o remoinho de terror - para formar o tão esperado clímax dramático, vai um longo tempo. Até lá prepare-se, leitor, para entrar no mundo da depressão particular de Mike Noonan, um escritor que perdeu a esposa tão amada, sente-se ilhado pelo medo da solidão, do bloqueio de escritor, dos problemas profissionais e pessoais. E, naturalmente, dos estranhos pesadelos que vão atormentá-lo enquanto está na "Casa do Lago", um verdadeiro labirinto de horrores do passado, presente e futuro, horrores esses dos quais muitos moradores da pequena comunidade fazem parte. Principalmente Max Devore, um velho horroroso dos pés à cabeça, feio por dentro e por fora. Um milionário que domina toda a vida comercial e financeira da região e que, por um acaso, vai conhecer Mike e odiá-lo pelo simples fato de que esse vai "desafiar" a autoridade do velho monstro. E, também, por causa da jovem e bela viúva Mattie.



Depois de apresentados a uma multidão de personagens, vivos e mortos (os fantasmas da história) e do terror particular de Mike, finalmente vamos encontrar os "xizes" da questão. Quem foi Sara Laughs, a cantora negra que morou e morreu naquela comunidade nos anos 20-30, qual a importância dela dentro da trama, quem é Mattie e Kia, por que o velho nojento Max Devore ("devore", um sobrenome que tem o sentido, em português, absolutamente de acordo com a personalidade do homem) odeia tanto as pessoas e por que todo mundo por lá o teme. E, o maior xis, quem é (ou quem "são") os fantasmas da Casa do Lago.


O final é de certa forma, um pouco decepcionante - já que por natureza os leitores querem sempre um final feliz para seus protagonistas. Entretanto o livro é uma obra, bem escrito, com frases memoráveis e um personagem bastante nauseante (Devore, claro) e inesquecível.


E ah, sim. Tem a minissérie "Saco de Ossos", igualmente interessante, porém se torna rasa se comparada com o livro, já que muitos assuntos são picotados, lances psicológicos ficam resumidos e algumas cenas memoráveis se transformam apenas em poucos e medíocres efeitos especiais.

Revista Literária em Tradução (n.t.) - Nº 8, lançamento

BY Jossi IN , , -


Para quem aprecia lançamentos em traduções inéditas, o site (n.t.) - Nota do Tradutor - oferece obras excelentes, em todos os gêneros literários: contos, excertos, poemas, ensaios e até quadrinhos. O site está no seu oitavo lançamento, do qual participo com o conto do escritor inglês William Hope Hodgson, Os Habitantes da Ilha Middle

Vale a pena conferir a edição, AQUI o DOWNLOAD.

POESIA SELETA
Não gosto, não gosto de poesia!|Nie lubię, nie lubię poezji!,
de Kazimiera Iłłakowiczówna
[Trad. Olga Kempińska]
Alguns breves poemas|Yrkingasavn, de Tóroddur Poulsen
[Trad. Luciano Dutra]
Ah Morte|Ah Ölüm, de Yunus Emre
[Trad. Leonardo da Fonseca]
Poemas seletos|Собрание стихотворений, de Ossip Mandelstam
[Trad. Verônica Filíppovna]
Bela Mãe das Águas Titicaca|Sumaq Mamacocha Titikaka, de Frida Rodas
[Trad. Gleiton Lentz]
Os Auspícios|Οἰωνοϲκοπικά, de Posidipo de Pela
[Trad. Eduardo de Almeida Rufino]


LATINOS
O Livro dos Epigramas|Epigrammaton Libri, de Marcial
[Trad. Scott Ritter Hadley]
Sátira IX|Satura IX, de Juvenal
[Trad. Fábio Frohwein de Salles Moniz]

PENSUM
Amiel e o canibal|Amiel şi canibalul, de Ciprian Vălcan
[Trad. Fernando Klabin]

ENSAIOS LITERÁRIOS
A “literalidade” da tradução|La “letterarietà” della traduzione, de Franco Fortini
[Trad. Davi Pessoa Carneiro]
Com a licença dos cervantistas|Con permiso de los cervantistas, de José Azorín
[Trad. Giane Oliveira]

CONTOS & EXCERTOS
Os Habitantes da Ilha Middle|The Habitants of Middle Islet, de William H. Hodgson
[Trad. Jossi Borges]


Vênus em Peles|Venus im Pelz, de Leopold von Sacher-Masoch
[Trad. Miguel Sulis]
A Desencantadora|Ἡ Φαρμακολύτρια, de Aléxandros Papadiamántis
[Trad. Théo de Borba Mossburger]

REGISTRO
A Cantilena de Santa Eulália|La Cantilène de Sainte Eulalie, anônimo
[Trad. Henrique Martins de Morais]
Os Juramentos de Estrasburgo|Les Serments de Strasbourg, de Nitardo
[Trad. Henrique Martins de Morais]

MEMÓRIA DA TRADUÇÃO
Imagem de Menilek: Rei dos reis de Etiópia
de Heruy Welde Selassie
[Trad. Francisco Maria Esteves Pereira]

QUADRINHOS
Fora de Contato|Out of Touch, de Ian Curtis
[Quadrinhos de Aline Daka]

Peter Straub - Os Mortos-Vivos [resenha]

BY Jossi Slavic Genius IN , , , , 2 comentários


Os Mortos-Vivos, uma fantasia moderna aos moldes góticos

A história se passa na pacata cidade de Milburn, e envolve um grupo de quatro amigos que foram a Sociedade Chowder: Ricky Hawthorne, John Jaffrey, Sears James e Edward Wanderly, que tem o costome de reunirem-se duas vezes por mês para contar histórias de fantasmas, acompanhados por charutos e bebidas. Não importa como as histórias aconteceram, o que importa é a forma em que é contada para o grupo.

Quando uma série de estranhos eventos começam a acontecer na cidade, eles resolvem pedir a ajuda de Donald Wanderly sobrinho de Edward. Donald é um escritor e seu último livro fora sobre ocultismo, por isso a Sociedade acredita que as pesquisas que Donald fez para o livro possam ajudá-los.

Donald chega na cidade e eventos ainda mais estranhos acontecem, alguns deles incluem uma ex-namorada de Donald, uma ex-moradora da cidade e alguns integrantes de uma das histórias de Sears James contada em uma das reuniões da Socidade.

Dados do livro:
Título original: Ghost Story
© Copyright desta edição, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo, 1987. Também há a edição do Círculo do Livro, cuja capa ilustra essa postagem.


O QUE ACHEI:
Por duas vezes tentei ler o livro, envolvida pela sinopse e parei logo após a aterrorizante (e envolvente) história de fantasmas contada por Sears James. Não por medo, mas por desgostar do início e do rumo que as coisas, aparentemente, tomavam.

O que me desagradou já de cara? O início do livro, onde Don é abordado em cenas caóticas, realizando uma ação aparentemente maluca, ao lado de uma menina mal vestida e desnutrida, órfão e aparentemente "esquisitinha" pelos seus modos de agir. O que significava tudo aquilo? Quem era Don Wanderley? Quem era a tal menina que, pelo que tudo indicava, não tinha família nem passado? Seria uma retardada mental? E o que Don queria com ela, se não era nenhum assunto criminoso do tipo infame (como pedofilia, por exemplo)? Teria ela o que a ver com fantasmas ou com o sobrenatural? 

Pois bem, por duas vezes tentei. Na segunda tentativa fui um pouco além do prólogo e do primeiro capítulo, além de "As histórias de outubro" e li a história de fantasmas de Sears James. Gostei, mas ao prosseguir, sem muita paciência, achei que o autor estava divagando demais, metendo novos rumos a uma história que tinha prometido ser legal, que os meandros tortuosos da narrativa estavam sendo exagerados, enfim... Pouca paciência de minha parte e não problemas do livro.

Mas desta vez resolvi pegar e ir até o fim, levasse isso para onde levasse. E não me arrependi. 

Após ler inúmeras resenhas positivas, apostei nesse livro de Straub e prossegui a leitura, relendo tudo desde o princípio (que é torturante pelas inúmeras dúvidas que surgem) e foi... E foi até muito rápido! Li em quatro dias o que a princípio imaginei que levasse um mês. 

O que realmente intriga e assusta um pouco o leitor mais acostumado aos enredos fáceis e leves da fantasia jovem-adulto ou das modernas loucuras de Stephen King, é que Straub usa de muita, muita sutileza ao nos conduzir pelo seu terror. Não é uma história simples ou uma mistura simplista tipo macabro-sangrento-sobrenatural. Tampouco se trata de um romancezinho sobrenatural como os água-com-açúcar de Stephanie Meyer. É uma coisa profunda, sutil, inquietante, que cutuca nossa mente e nos lança diversas questões no espírito. Em alguns momentos chegamos a parar a leitura por senti-la extremamente forte, sufocante até... Quando algumas mortes ocorrem sentimos a tentação de gritar e pedir socorro a um Deus que, em momento algum, Straub cita em sua história. Esquisito isso, pois ele vai tratar de seus fantasmas bizarros como se fossem entidades semidivinas sem, contudo, mencionar o nome de nenhuma deidade - de quaisquer religiões - ou anjos, ou protetores espirituais, etc., para auxiliar os pobres protagonistas que as enfrentam. É como em alguns filmes de terror que assistimos, onde as vítimas enfrentam o demo sem o auxílio espiritual, só usando de meios físicos. 


Entretanto, a história de Straub não tem um enredo linear, é apresentada na forma de várias pequenas camadas, algumas vezes avançando no tempo, algumas vezes retrocedendo para contar sobre o passado da pequena Milburn. Ou o passado de um ou outro personagem que, à primeira vista, parece nada ter a ver com o que nos intriga. E eu pensava: Mas o que esse fazendeiro caipira e doido tem a ver com a história dos fantasmas da Sociedade Chowder? Eu quero saber o que ocorre aos ilustres idosos que são protagonistas e não dos moradores - figurantes - da cidadezinha. E também havia o jovem Wanderley, sobrinho de um dos velhinhos que se suicidara e que surge no prólogo do livro. Qual será o papel de Don Wanderley, o único jovem da "Sociedade" - sem contar que mais tarde surgiria outro jovem - ? 

A primeira história que se ouve é a do Dr. Sears James, advogado e sócio de Rick Hawthorne e esta lembra muitíssimo "Os Inocentes" de Henry James (dizem que Peter Straub bebeu na fonte desse autor ao escrever esse livro). 

Por gerry and me, Deviantar.com

Porém, na continuidade do livro tudo muda de figura e o clima gótico desaparece, quando o inverno se torna rigoroso e uma nevasca literalmente infernal cai sobre a cidade, ilhando-a do resto do mundo. Nessa altura, o sobrinho do falecido Edward Wanderley já está na cidade e contará também a sua história de fantasmas, onde uma lindíssima mulher, Alma, teve um papel definitivo.


E daí em diante, as coisas serão só ação, suspense e um terror alarmante.

O livro transcorre com muita adrenalina para os leitores - e aviso aos leitores sensíveis, cuidado. Pois ficarão com certo medo ou, para ser mais clara, com uma sensação esquisita ao fim de cada capítulo. E, como num vício, sentirão mais necessidade de ler,  por maior que seja a sensação esquisita, porque a única solução para se sentir bem é... saber tudo. Saber todos os mistérios da cidade e dos quatro senhores da Sociedade Chowder, saber dos segredos de Don Wanderley e o que toda aquela cena alucinante do prólogo significa.

E o livro agradará os que gostam de boa fantasia, garanto. O final é fechado com chave de ouro. Um enredo que ganha força a cada página virada, embora o maior de todos os mistérios tenha ficado, afinal, sem uma explicação satisfatória. Mas vale cada linha lida. Recomendo!