Catherine Gaskin - O Vaso Partido [atualização]


Tudo começou com o ruído inesperado de cristal esfacelado... "O Vaso Partido", resenha


Título original: Edge of glass

Catherine Gaskin

Ano: 1987

Páginas: 250

Editora: Record


Sinopse:

Tudo começou com o ruído de cristal esfacelado... Maura D'Arcy é jovem e bonita, com uma promissora carreira de modelo, e descobre ser a ultima descendente da família Sheridan, vidreiros famosos. Viaja então para Conclath com o fito de reclamar o vaso de cristal que fora roubado de sua mãe.
Em Conclath, Maura encontra sua avó, mulher forte e autoritária, Connor, seu primo, homem misterioso e sombrio, e Brendan Carrol, que exerce sobre ela forte atração... mas ela sente-se dividida... entre os dois irlandeses, sua vida em Londres, e seu compromisso com a família Sheridan.

A RICA HISTÓRIA DO VIDRO IRLANDÊS

O Vaso Partido é um mais do que um romance no estilo gótico -- como todos os dessa autora --, é também um pedacinho da história da Irlanda. Eu mal conheço (por meio de leituras e pesquisas) a velha Inglaterra, quanto mais a Irlanda. Sei, entretanto, que são terras habitadas por um povo bravo, corajoso e estranho, até certo ponto.

Esse livro eu comprei quando tinha quinze ou dezesseis anos, numa das livrarias mais badaladas de Curitiba, na Rua XV. Eu estava alegre porque tinha ganhado minha mesada e ia gastá-la comprando o que eu mais amava (e amo): livros. A capa linda, como a maioria das capas de romance da Editora Record (e até os de banca, naquele tempo), me chamou a atenção de imediato: Um casal charmoso, vestido à moda dos anos 1970, o homem com ar austero, a moça de longos cabelos castanhos-acobreados esvoaçantes, tendo ao fundo um castelo medieval, mergulhado nas névoas invernais do oeste europeu.

Uma cena belíssima e a sinopse, igualmente atrativa, me fizeram comprar o livro, que guardo até hoje.


Considero esses antigos bestsellers "retrô", como clássicos modernos. A história contada por autores como Catherine Gaskin, Daphne Du Maurier, Harold Robbins, Agatha Christie, Aldous Huxley, Boris Pasternak, Christian Jacq, Eileen Goudge, Frank G. Slaughter, F. Paul Wilson, George Orwell, Howard Fast, Irving Wallace, Judith Krantz, Ken Follet, entre outros, são atemporais: Suas descrições de lugares ou cenas históricas são ricas e bem detalhadas, os personagens são profundos, com conflitos psicológicos que nos fazem refletir sobre a conduta humana e seus debates entre moralidade e imoralidade, entre a ideologia falsa e a verdadeira, entre amores profundos e paixões passageiras. O que não ocorre hoje em dia, em tempos de "livros descartáveis" como certos livrecos sobre vampirinhos-do-bem, homens-lobo, adolescentes possuidoras de superpoderes, etc. Enfim, enredos que poderiam virar histórias em quadrinhos e entreter adolescentes -- com pouco a acrescentar, além de uma rápida distração.


Nesse romance, Maura D'Arcy é filha de uma mulher, cuja mãe a rejeitou no passado por causa de um problema familiar. A mãe de Maura já morreu, mas sua família ainda vive na remota Conclath, Irlanda. Ela descobre que é a última Sheridan (ou Tyrell, que é o sobrenome da antiga aristocracia da região), e será levada por acontecimentos inesperados a viajar para a velha mansão Meremount, em Conclath.

O enredo traz à tona dois homens: o primo de Maura em terceiro grau, Connor, moreno e sombrio e o jovem Brendan Carrol, loiro e descontraído. A vida em Meremount fará com que Maura mergulhe na história daquela decandente senhora, Lady Maude Tyrell, sua avó, e todos os desacertos, sofrimentos, aventuras e desventuras pelas quais ela passou, e junto com ela, todos que habitam a velha e arruinada mansão.
É uma trama sombria e maravilhosamente entretecida de pequenos recortes históricos da Irlanda, da história do vidro, sua fabricação, seu feitio manual, seus tipos, os homens que trabalham com ele (vidreiros), etc.

'— Imagine só — disse ele. — Plínio conta a história de uns mercadores que, milhares de anos antes de Cristo, acamparam nas areias do rio Belus. Eles colocaram as suas tigelas quentes de comida sobre alguns pedaços de natrão que estavam levando, e de manhã viram que o calor dos potes havia fundido a areia e a soda, formando vidro. É uma história boazinha, mas acho que a comida deles devia ter ficado bem estorricada para que os potes ficassem tão quentes. Isso é vidro feito pela mão do homem. Mas tem também o vidro que vem da natureza, obsidiana negra; há montanhas inteiras desse material. As tribos antigas do México barbeavam-se com isso, e sacrificavam as suas vítimas para os deuses com facas feitas desse material. Mas foram os egípcios que fizeram o primeiro vidro de que temos notícia. Eles tinham todos os ingredientes necessários: areia, soda e combustível dos bosques de acácias, e pessoas ricas o bastante para pagar por um material tão caro. No começo faziam vasilhas e garrafas formando uma fusão de sílica e soda em volta de um centro de argila e areia, que podia ser retirado quando a fusão já tivesse esfriado e endurecido, ficando um recipiente oco de vidro opaco. Eles continuaram a usar esse sistema por muito tempo, até que alguém descobriu que a fusão líquida poderia ser colocada na extremidade de uma haste oca de ferro e soprada, fazendo uma bolha, e que esta bolha poderia ser soprada em moldes para que formas idênticas pudessem ser feitas. Isto era uma espécie de produção em massa, e o vidro tornou-se relativamente barato. Reaquecendo a bolha fundida todas as vezes, que ela começava a esfriar e endurecer, eles descobriram que podiam mantê-la em um estado que permitia que trabalhassem nela, e poderiam fazer com ela o que quisessem: esticá-la, apertá-la, amassá-la, cortar, rasgar... Veja só...'
Também mostra dramas pessoais que dividem os personagens, como o drama vivido por Connor e Lotti, o drama vivido no passado por Blanche D'Arcy e o rompimento entre ela e a austera Lady Maude, os habitantes de Conclath, entre outros.
 

'— Não! — eu disse. — Isto é que é mentira! Todos os anos em que eu permaneci uma estranha foram por culpa sua, Lady Maude. Eles não precisavam ter existido. A senhora teve 23 anos para fazer de mim uma neta. Preferiu não fazê-lo.
— A sua mãe me traiu! Você acha que eu iria querer você enquanto a influência dela estava lá para destruir e corromper todo o bem que eu iria fazer? Sim, corromper! Blanche não era melhor do que esta outra, a sua filha, Herr Praeger. Blanche me traiu e a todo o futuro dos Tyrell por causa de um homem. Então esta outra veio e não apenas corrompeu o que havia de bom aqui, mas tentou roubá-lo de mim. E agora a minha neta... Mas ela já pertencia à sua laia; quase nem precisou ouvir as mentiras antes de acreditar... Eu errei em ter esperanças. Eu errei em pensar que, por ser uma Tyrell, ela seria diferente da mãe, diferente de todas essas moças estúpidas, corruptas e egoístas que há aí hoje em dia.
Ela descansou as duas mãos na bengala. Era uma bengala de homem, comprida, mas não grande demais para a sua altura, com uma cabeça de leão de prata no castão. A cabeça leonina e a velha pareciam fazer parte do mesmo mundo, selvagens e orgulhosas, agarradas à vida.
— Bom, chega de alimentar esperanças Esta foi a última vez que me traíram. Onde não há esperança, há pelo menos paz. [...]
Nenhum de nós se moveu ou falou. Havia uma tristeza terrível naquela cena: a sua subida vagarosa pelas escadas; e, contudo, era também uma cena maravilhosa. Fiquei pensando, de pé, sem ousar ir ajudá-la, sabendo que iria logo dar de cara com o seu desprezo, a sua rejeição final, que esta seria a última vez que veria esta velha demente, vivendo ainda como uma aristocrata quando todo o código que orientava a sua vida havia sido transformado em nada no correr deste século. Senti, também, uma tristeza por mim mesma, uma vaga sensação de perda, contudo era a perda de alguma coisa que eu nunca conhecera. Ela estava certa. Eu não dera nada a ela; ela não me devia nada. Ela também saía perdendo. '
Um livro rico em todos os sentidos: uma narrativa ágil, simples e, ao mesmo tempo, perfeita em retratar uma época, a história de uma aristocracia falida e de um estilo de vida que já não existe nos dias de hoje: Nostalgia, muitas reflexões, é o que esse livro proporciona. Além de um bom suspense, é claro.
Se você gostou da resenha, poderá adquiri-lo somente em sebos, já que não há reedições, o que é uma pena.

Sheridan Le Fanu - Carmilla (tradução: Jossi Borges)



NOS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA VAMPÍRICA

O conto longo ou novela de Sheridan Le Fanu foi um marco na literatura gótica, no século XIX. 
Quando li o conto pela primeira vez, foi em um livro emprestado na Biblioteca Pública do Paraná, lembro-me de ter encontrado nas prateleiras de "Literatura Estrangeira - Contos". Procurava, como sempre, um livro com contos sobrenaturais ou pelo menos, com muito suspense.

Marcilla ataca a adormecida Bertha, Ilustração do The Dark Blue de D. H. Friston (1872)

Deparei-me com uma coleção de grossos e antigos livros de capa dura, bem manuseados, em cujas lombadas eu li: "Os melhores contos de suspense da literatura mundial", "Os melhores contos de Natal da literatura mundial" e assim por diante. Até encontrar um título mágico, que brilhou diante dos meus olhos jovens: "Os melhores contos de terror da literatura mundial". Passei a mão no livro, de páginas amareladas e percorri o índice com olhos ávidos. Um dos títulos da coletânea era "Carmilla" e eu fiquei ansiosa para ler aquilo. Bastou um lance de olhos no primeiro capítulo para eu me render: "Excelente", eu pensei. "Uma história que se passa em regiões longínquas da Europa, entre castelos velhos e com clima de terror gótico".


Está no meu sangue, esse amor ao Romantismo e ao suspense, à Literatura Gótica, a tudo que remete ao sombrio mundo europeu -- ou semelhante a esse -- com suas florestas escuras e frias, suas cidades  antigas, suas igrejas de arquitetura intrincada e beleza austera e, principalmente, seus magníficos castelos. Alguns, assombrados.

O livro que me caiu em mãos me trouxe o primeiro contato com a Literatura Gótica (chamada 'terrorífica' até os idos da década de 1970), nascida pelas mãos de Sir Horace Walpole e seu insosso "O Castelo de Otranto" (1764), cheio de personagens inverossímeis, fantasmas bizarros e meio bobinhos, passagens secretas e afins.  Mas deixemos de lado Walpole, e lembremos de bons autores góticos, como Charles Robert Maturin, com "Melmoth, o Peregrino", Mary Shelley ("Frankestein ou o Moderno Prometeu"), Gustav Meyrink ("O Golem"), Oscar Wilde ("O Retrato de Dorian Gray" e "O Fantasma de Canterville"), Henry James ("A Outra volta do parafuso"), Bram Stoker ("Drácula", "A Toca do Verme Branco", "The Jewel of Seven Stars", "O Hóspede de Drácula"), etc.


O conto "Carmilla" era instigante, principalmente porque eu já lera "Drácula" e, quando soube que aquele foi inspiração para este último, fiquei encantada. 

Mais tarde, adquiri o livro "O vampiro de Karnstein e outras histórias", publicado em 1997, pelo Círculo do Livro. Desde então, Le Fanu está entre meus autores favoritos, junto com Bram Stoker.

Agora, apresento a vocês minha própria tradução de "Carmilla", a partir do original, com notas e ilustrações. Enfim, bebi da fonte do grande autor e trouxe mais uma opção em e-book, hoje na Amazon, para os amantes do terror gótico - uma vez que essa literatura é praticamente desdenhada no Brasil (digo, a literatura do século XIX). 

Querem conhecer a história de mistério, sensualidade maligna e terror, que inspiraram Bram Stoker? Conheçam Carmilla na Amazon!


Stephen King - Sob a Redoma



Stephen King - Sob a Redoma

Ano: 2012 / Páginas: 960
Idioma: português
Editora: Suma de Letras

Na trama, em um dia como outro qualquer em Chester’s Mill, no Maine, a pequena cidade é subitamente isolada do resto do mundo por um campo de força invisível. Aviões explodem quando tentam atravessá-lo e pessoas trabalhando em cidades vizinhas são separadas de suas famílias. Ninguém consegue entender o que é esta barreira, de onde ela veio e quando — ou se — ela irá desaparecer.
Os moradores de Chester’s Mill percebem que terão de lutar por sua sobrevivência. Pessoas morrem, aparelhos eletrônicos entram em pane ao se aproximar da redoma e a situação fica ainda mais grave quando a cidade se vê exposta às graves consequências ecológicas da barreira. Para piorar a situação, James “Big Jim” Rennie, político dissimulado e um dos três membros do conselho executivo da cidade, usa a redoma como um meio de dominar a cidade.
Enquanto isso, o veterano da guerra do Iraque, Dale Barbara, é reincorporado ao serviço militar e promovido à posição de coronel. Big Jim, insatisfeito com a perda de autoridade que tal manobra poderia significar, encoraja um sentimento local de pânico para aumentar seu poder de influência. O veterano se une a um grupo de moradores para manter a situação sob controle e impedir que o caos se instaure. Junto a ele estão a proprietária do jornal local, uma enfermeira, uma vereadora e três crianças destemidas.
O isolamento sob a redoma expõe os medos e as ambições de cada um, até os sentimentos mais reprimidos. Assim, enquanto correm contra o pouco tempo que têm para descobrir a origem da redoma e uma forma de desfazê-la, ainda terão de combater a crueldade humana em sua forma mais primitiva.

SOB A REDOMA E SOB AS BOTAS DA TIRANIA...

O fato de Stephen King ser um consagrado autor de bestsellers de terror -- tanto naturais quanto sobrenaturais -- não o exime de algumas faltas e alguns abusos que ele cometeu ao escrever Sob a Redoma.

É desnecessário falar novamente da redoma (um campo de força invisível e inexplicável) e todo o caos que ela provocou a partir do momento que desceu sobre a pequena Chesters Mill, isolando-a do mundo. O problema maior, conforme nos enfronhamos na história e ansiamos por saber o que é a redoma, ou por que ela está ali, vai se revelando... nas pessoas da pequena cidade. Principalmente no seu vilão-mor, Big Jim Rennie.


Estou achando que Stephen King usou esse romance de terror para fazer um tipo de crítica social, voltada é claro, contra os homens que nos governam... nesse sentido, não pude notar nele nenhuma queda -- para a chamada 'direita conservadora' norte-americana, tampouco para a tal da 'esquerda progressista' que, convenhamos, está mais para bizarra do que qualquer outra denominação. Mas no que se refere ao autor: sim, ele foi bem isento. Não há nenhum traço de crítica contra uma determinada ideologia. Embora eu tenha me sentido na pele dos moradores de Chester's Mill, sob a batuta de um tiranete chamado Jim Rennie (e que me lembrou um determinado político brasileiro que, é mais do que notório hoje, é um bandidaço tal e qual Big Jim).


Voltando à história: Jim Rennie é mau, muito mau. É um dos piores vilões de S. King, atrevo-me a dizer. Talvez perdendo apenas para a Coisa do livro de mesmo nome, embora aquela 'Coisa' fosse sobre-humana e, portanto, tivesse poderes e maldades inigualáveis. E Jim Rennie me fez relembrar por várias vezes o livro de Andrew Lobaczewski, "Ponerologia - Psicopatas no Poder". Na verdade, esse personagem é um estudo literário de psicopatia, fantástico em todas as suas características e ações. O que o povo de Chester's Mill sofrerá nas mãos desse psicopata (e de seu filho, outro psicopata, Junior Rennie) é de arrepiar até o último fio de cabelo...


Não é a redoma o MAL em si, é aquele senhor gordo, de rosto balofo, grandes papadas, sorriso de raposa e cérebro de gênio demoníaco. Ele não se preocupará com o bem-estar do povo - embora alegue isso o tempo todo, e convença meio mundo - mas com o fato de que terá esse povo todo, toda aquela cidadezinha nas suas mãos. É o poder, não exatamente o dinheiro, que ele ama. É o poder de comandar, de pisotear os inimigos (ou pessoas que não se submetem a ele): o prazer de comandar, de exercer sua força bruta, de tiranizar e, claro, maltratar as pessoas que odeia: eis o supremo êxtase para Jim Rennie.

Personagens que são os protagonistas - os mocinhos e mocinhas: Dale Barbara ou Barbie (ex-tenente do Exército americano), que cairá na desgraça de ser odiado por Junior Rennie. Este é outro personagem macabro. Tão psicopata e psicótico -- ambas as coisas, sendo a primeira um distúrbio da personalidade [1] e a segunda, uma doença mental, quanto o pai, Junior será o tormento dos leitores mais sensíveis... cuidado, se você não for muito afeito a cenas nojentas, violentas, de uma insanidade brutal (a marca de Stephen King), cuidado com Junior Rennie.


Temos ainda a simpática jornalista conservadora (republicana, que paradoxalmente tem um jornal chamado "O Democrata"), Julia Shumway. Torceremos por ela do começo ao fim, por sua personalidade forte, inteligência aguçada e têmpera guerreira. E muitas crianças... a lista delas é grande, pois este livraço tem personagens para três novelas brasileiras e ainda sobram. Destaque para os lindos e inteligentes Joe e Norrie, que parecem mais antenados com a redoma do que os adultos. Outros personagens, por quem os leitores provavelmente irão torcer, são: Andrea Grinnell, as policiais Jackie Wettington e Linda Everett, bem como o marido desta última, Rusty.


Entretanto, apesar de um bom cenário meio apocalíptico, um vilão-super-mauzão, vários personagens cativantes (e outros terrivelmente desprezíveis) e uma temática original -- uma redoma que isola uma cidade inteira do mundo! -- Stephen King abusou de palavrões, expressões chulas, cenas que podiam ter sido cortadas (para o bem psicológico do leitor), um desenrolar lento... muito, muito lento... da história. Aliás, além de todos os palavrões, cenas dantescas (como as da necrofilia, do estupro, das inúmeras mortes e... por aí afora), ele podia também ter podado vários personagens inúteis. Não direi quais, apenas que serviram como "poluição literária", nada mais.

Fora isso, é um suspense e tanto. O final é meio... assim, assim... Não muito grandioso, mas tudo bem. Valeu pelo suspense.


Daphne Du Maurier - A Pousada da Jamaica



UMA POUSADA MAIS DO QUE SUSPEITA...

Daphne du Maurier
Título Original: Jamaica Inn (1936)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 260
Sinopse: 'A Pousada da Jamaica' é uma obra-prima do romance de mistério, que se passa na Cornualha no ano de 1820. Mary Yellan, uma jovem de vinte e três anos, vê-se obrigada, após a morte da mãe, a ir viver com uma tia num local ermo e isolado onde esta, juntamente com o marido, explora a Pousada da Jamaica. Mas Joss Marlyn, o marido da tia Patience, é um homem obscuro e violento, e uma atmosfera ameaçadora e sinistra envolve aquele lugar. Suspense, paixão e aventura numa obra reveladora da capacidade única de Du Maurier para captar o espírito perturbador, quase sobrenatural, dos locais que elege como cenário dos seus romances.


ANALISANDO...
Embora estando um bocado irritada com a saga do plágio de Du Maurier (LEIA AQUI), tive que dar mão à palmatória: a senhora inglesa era uma boa escritora de romances góticos. Ao lado de Catherine Gaskin, Dorothy Daniels (esta só conhecida pelas adoradoras de romances água-com-açúcar), Bram Stoker (inigualável), Sheridan Le Fanu (autor da noveleta que inspirou o "Drácula" de Stoker) e Emily e Charlotte Brontë, tomei gosto pelo estilo sombrio e dramático de Du Maurier e resolvi ler todos os livros dela que, por acaso, eu encontrar pela frente.

Esse livro me veio às mãos através de um sebo e considerei uma raridade (para mim). É uma edição antiga, de Portugal, 1974, mas estava em ótimo estado. Ponto para mim.


A trama está bem abaixo de "Rebecca" e "Minha Prima Raquel", porquanto carece da profundidade, do entrelaçamento perfeito entre suspense, personagens, mistério, conflito e clímax, como ocorreu com os dois livros citados. Mas é um romance curioso, instigante, traz à tona a velha Inglaterra das herdades (fazendas, sítios, chácaras), dos camponeses, dos homens brutais, das famílias conservadoras e das mulheres fortes... e de outras, nem tanto assim.

A jovem Mary tem que morar com uma tia, irmã de sua mãe, após a morte desta. Imagina que sua tia Patience era a mesma moça bonita e alegre que conhecera na infância, e qual não foi sua surpresa ao chegar à tal pousada, que em tudo fazia lembrar a mansão de Whutering Heights -- os ventos úmidos, a casa envelhecida e sombria, os charcos e pântanos em torno, uma neblina desgraçada de tão densa... Entretanto, o drama desse pequeno romance é menos denso que as tais neblinas.

A tia Patience é uma mulher envelhecida, trêmula, fazendo o leitor pensar numa senhorinha pálida e de olheiras fundas, tremendo feito vara verde ao menor berro do maridão. Este, Joss Marlyn, de cara aparece diante de nós como o típico "macho-opressor", de quem as feministas fazem alarde. É enorme, feio, abrutalhado, um verdadeiro Neandertal. A mocinha fica assustada, mas como boa camponesa que era, soube enfrentar a alegria grosseira e as piadas de mau gosto do sujeito com altivez.

Logo a trama toma forma, com um mistério surgindo aos olhos aterrados de Mary. E ela não vai sossegar até descobrir tudo, mesmo que isso lhe custe a própria liberdade. Nada teme, nem Joss com suas tramas malignas, seus comparsas da pior espécie, os pântanos e charnecas tristonhos que cercam a horrorosa morada. E há até um pequeno triângulo amoroso, formado por Mary, Jem Merlyn e Francis Davey, o pastor local.


É um romance de suspense, tal como a maioria dos livros de Du Maurier, mas tem aquele toque de estranheza, sombras densas em cada página, nos fazendo ansiar pela página seguinte -- onde as sombras se dissiparão... mas não acontece. Não é exatamente um livro de terror, mas os apuros que Mary e Patience enfrentarão o tornam quase isso. 

Outro dado importante para a mulherada que gosta de romance-rosa: Sim, tem uma trama romântica, embora eu mesma tenha considerado a protagonista uma doida varrida, uma doida de pedra, uma completa alucinada por ter dado aquele passo e aquela escolha.

Vale a pena a leitura.

Carolina Nabuco X Daphne Du Maurier: A SUCESSORA e o plágio REBECCA



A Sucessora
Carolina Nabuco
Ano: 1934 / Páginas: 244
Idioma: português 
Editora: Ediouro

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Rebecca 
Daphne Du Maurier
Ano: 1938 / Páginas: 396


Eu li e reli A SUCESSORA e agora, terminei de ler REBECCA. 

Tornei-me fã da grande Carolina Nabuco quando, ainda adolescente, li uma versão de bolso da Ediouro que eu comprava pelos correios: Era um livrinho pouco maior que a palma de minha mão. Eu assistira a novela global "A Sucessora"(1934), onde Suzanna Vieira interpretava Marina e Rubens de Falco - bonitão, bigodudo, com os faiscantes olhos azuis - era perfeito como Roberto.

Suzanna Vieira e Rubens de Falco em 'A Sucessora'

A novela despertou-me a curiosidade para o livro que a inspirara e eu pus-me à correr atrás do mesmo. Percebo que hoje, tristemente, não existe mais nenhuma nova edição de "A Sucessora", coisa que me deixa muito chateada. O Brasil esquece-se de todos os seus grandes vultos do passado, incluindo tanto personalidades políticas, militares, imperadores, quanto escritores, filósofos e artistas. Um caso flagrante é o do filósofo Mario Ferreira dos Santos -- totalmente esquecido, enquanto nulidades como Jean Willys, Marilena Chauí e aquele médico "entendido em presídios" (o contratado pelo Fantástico), Drauzio Varella, fazem fortuna rabiscando bobagens.

O fato é que Carolina Nabuco escreveu um bocado, embora não tantos romances quanto eu gostaria. Mas os dois que escreveu, "A Sucessora" e "Chama e Cinzas", são belos, sendo que o segundo pode se equiparar ao de qualquer clássico romântico da literatura mundial. E quase NINGUÉM o conhece! Você, leitor, o conhece? Não? Por favor, se não leu, procure-o em sebos ou na biblioteca pública mais próxima. É lindo.
Voltando à história da jovem Marina, que se casa com um milionário (Roberto) e é "assediada" pelo "fantasma" da falecida esposa -- fantasma metafórico -- , o romance da brasileira Carolina é mais singelo que o outro, o que disseram ser "inspirado" nele, da inglesa Daphne Du Maurier, "Rebecca".

É óbvia a cópia da história, com uma ou outra variação, mas pasmem: até dois personagens de Du Maurier, justamente os criados de Menderley, tem os nomes de dois personagens de Carolina: o mordomo Robert (Roberto) e a criada de quarto Alice (Alice, primeira mulher de Roberto). A inglesa também plagiou toda a temática da jovem esposa do viúvo maduro, a história da obsessão de Marina por Alice, a vida transformada da mocinha do interior (no caso de REBECCA, da dama de companhia tímida), o sutil mistério que envolvia o palacete carioca (no caso de REBECCA, a mansão Menderley), etc. 

Fiz questão de ler os dois, um em seguida do outro e comparar. O romance brasileiro -- o que originou o outro, que aliás arrebanhou até duas estatuetas do Oscar, no filme "Rebecca, a mulher inesquecível" -- é muito mais curto, com personagens bem trabalhados, algumas tiradas tragicômicas (com o primo Miguel), descrições bonitinhas do cenário rural onde vivia Marina, do Carnaval carioca nos anos 1930, etc.  Já o outro, embora tenha 'sugado' os principais temas da história (o viúvo aparentemente inconsolável, a mulher morta cuja presença persiste na mansão onde vivera, os parentes do marido, todos 'fascinados' pela lindíssima e charmosa defunta, o grande quadro onde ela está e cuja magia envolve a todos, etc.), é mais longo e envereda, do meio para o fim, para uma trama de suspense e mistério dignos das melhores histórias de detetives.

Por esse motivo, o livro de Carolina passa meio que batido, sendo considerado meramente uma "inspiração" para o outro.
O que ocorreu, então?


Muito bem, Carolina Nabuco escreveu o seu romance e o publicou no Brasil, em 1934. Como quisesse vê-lo publicado também no exterior, entrou em contato com um editor inglês, enviando-o já traduzido para o inglês. O livro foi recusado. Curiosamente, Daphne Du Maurier lançaria o seu "Rebecca" quatro anos depois (1938), pelo mesmíssimo editor que recusara o de Carolina.

Caso idêntico aconteceu com o livro do brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011), "Max e os Felinos" (1981), plagiado pelo escritor canadense Yan Martel no seu "As Aventuras de Pi". Mesmo com cenários, contextos históricos, trama, etc., bastante diversos, é óbvio - ÓBVIO, sim - que foi um plágio. Moacyr Scliar, mesmo com a intenção de referir-se alegoricamente à "ditadura" militar brasileira (o jaguar no bote seria a tal 'ditadura'), foi lesado. Outro brasileiro cuja propriedade intelectual - A IDEIA - foi escandalosamente roubada, transformada em livro, o livro em filme, o filme aclamado mundialmente e... tudo acabou em pizza.

Será que se fosse o contrário, se Carolina Nabuco e Moacyr Scliar tivessem plagiado os estrangeiros, tudo teria acabado em pizza? Óbvio que não.
Moacyr Scliar fala aqui do plágio e de toda a polêmica gerada:


Resumo da ópera: Os brasileiros tiveram as ideias originalíssimas e, graças à "inspiração-cópia", os outros usaram e abusaram das ideias, transformando-as à seu bel-prazer, inserindo aqui e ali outros personagens, polindo uma ou outra ideia, alargando, colocando mais ação sobre a trama, criando suspense, criando mais mistérios, acrescentando mais pimenta, mais tempero, mais... mais de tudo. E transformaram as obras copiadas em bestsellers mundiais. Honesto isso? Claro que NÃO. 

Posso garantir que REBECCA é um livro fantástico. Não o nego. Tem no seu âmago a ideia inteligente que Carolina Nabuco gerou, tem quase os mesmos personagens (Germana, a irmã de Roberto, está presente também em "Rebecca", em Beatrice (irmã de Max) bem como Julia, a governanta mau humorada, que no livro de Du Maurier se transforma na autêntica vilã, Sra. Danvers). Até o baile de Carnaval descrito poética e delicadamente por Carolina está no livro da inglesa, transformado é claro, num baile à fantasia.


Laurence Olivier e Joan Fontaine, em 'Rebecca'

Não nego que REBECCA sugou todas as boas ideias de A SUCESSORA e acrescentou mais, muito mais. É, no fim das contas, mais que o romance psicológico de Carolina: é um verdadeiro romance gótico, ambientando na sombria e altaneira Manderley, mansão gótica encravada na  exótica costa da Cornualha. Além disso, tem um bom suspense, uma protagonista e um mocinho cheios de charme e mistério. O romance de amor também está presente, pois que de início o casamento entre "a narradora" (nunca é citado o nome da moça, tratada apenas como Mrs. De Winter ou segunda Mrs. De Winter) parece frio, apático. Maximilian de Winter, o marido, parece tratá-la com a mesma ternura negligente que dedica aos seus cães favoritos e é sempre com afagos na cabeça da esposa, um beijinho na testa, um toque no braço, etc, que ele revela seu amor. Isso também é um mistério, já que a Esposa julga-o ainda "apaixonado" por Rebecca, a inesquecível... 

Quando ela resolve fazer excurssões pela propriedade e vai até as praias mais distantes, encontra coisas... fareja mistérios... e o desfecho da história é bastante similar aos melhores romances de detetive, com pitadas de terror gótico, tendo a sinistra Sra. Danvers protagonizado a vilã típica.



Entretanto, sempre nos fica aquele travo amargo, mesmo quando vibramos com a boa história. Está certo que tudo mudou no final da trama, tendo o livro de Carolina ficado meio como que "insosso" se for comparado ao seu plágio. 


Mas é nosso patrimônio cultural e tem sua graça, sua beleza típica no estilo narrativo, uma nostalgia envolvente quando fala do delicioso Brasil de outrora, suave, ora refinado entre os ricaços, ora puro encanto agreste, ao descrever a fazenda da família de Marina:

O administrador seguiu-o, mais devagar, subindo a pequena inclinação do alto da qual a casa dominava o vale todo, larga e nobre na sua simplicidade de quadrângulo, tão vasta que uma boa metade nunca se abria, e cercada das dependências, das construções decadentes vin­das dos tempos prósperos da escravidão; de um lado o terreiro de tijolo onde secavam o açúcar e o café; a pequena enfermaria; as oficinas de car­pinteiro e de ferreiro; ao meio do declive, as cachoeiras, ao fundo, a rua da senzala com a pro­miscuidade dos casebres onde outrora os escra­vos viviam; e descendo a inclinação, de um lado o engenho moedor, e de outro a torre da capela surgindo humildemente no meio das manguei­ras velhas que davam sombra ao cemitério e dos eucaliptos que o demarcavam. Ao longe, o rio, que, antigamente, nos tempos prósperos, antes da Abolição, conduzia o café até o porto e que hoje, sem utilidade, sem trato, com o leito entu­pido, se perdia nos charcos da baixada.
O sol sumia-se com pompa atrás dos morros. Passou um preto velho, manquejando, em busca da capela, para ir tocar o Angelus. Lançou a Marina a saudação da tarde: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”
Ela respondeu: “Para sempre seja louvado.”

E neste trecho, onde Adélia, prima de Marina, comenta sobre a beleza de Alice, a inesquecível:
Na vida de todo dia, a intimidade de Alice se desvendava por uma série de pequenos indícios, reveladores de traços novos a acrescer ao muito que Marina já sabia dos seus hábitos e do seu caráter.A primeira vez que viu a letra de Alice, na folha de rosto de um livro, tivera a percepção, pela altura dos traços e o tamanho das maiús­culas, de um grande orgulho, traço que Marina odiava. Mais tarde encontrou a confirmação dele numas palavras que Alice escrevera, por ócio, através da folha de cima de um bloco de papel de carta: “O orgulho é meu pecado e a lealdade minha virtude.”Descobriu também, gravada no mesmo pa­pel de correspondência, em prata sobre cinza, a divisa de Alice, irmã da sua: Fidelis usque ad mortem... Por fragmentos de conversa que ou­vira citar familiarizara-se com algumas ex­pressões prediletas de Alice e essas, inconscien­temente, iam-se introduzindo no próprio voca­bulário. Sem o saber, imitava Alice, como Laurita, Adélia e outras a haviam imitado em vida. A grande sedução de Alice, que Marina sen­tira primeiro por intermédio de Adélia, conti­nuava a exercer-se, mesmo através da estranha inimizade. Envolvia-a agora de todos os lados como um aroma irresistível. O prestígio exer­cido sobre sua meninice não fizera senão crescer com a familiaridade nova, com a avaliação do amor que Alice soubera inspirar a Roberto e da mestria com que ela se desempenhara dos deve­res que agora cabiam a ela, Marina. Não encon­trara ainda uma só voz divergente, no coro de elogios.Uma vez Marina perguntou a Adélia, mos­trando o retrato:— Você ainda conserva a mesma admira­ção por ela?— Por quem? Por Madame Steen? Con­servo. Acredito que, se eu a visse hoje, eu a acharia a mulher mais elegante que eu já vi e uma das mais bonitas.


O livro de nossa Carolina Nabuco, por menor ou menos loquaz, com uma trama mais simples ou o que for, terá sempre o privilégio de ter criado Marina e Roberto Steen, um dos casais mais charmosos da nossa literatura e, claro, da televisão brasileira, pela novela da Rede Globo, exibida no período de 09/10/1978 a 03/03/1979, da autoria de Manoel Carlos.